João Costa Pinto
João Costa Pinto 21 de Novembro de 2016 às 20:30

Para quê um "banco mau"? - (LXXXIV) 

1. Em tempos normais, a "limpeza" dos balanços dos bancos é sobretudo um problema dos accionistas, a quem compete mobilizar os capitais necessários à preservação da solvabilidade dos seus bancos.

No entanto, e como sabemos, os bancos não estão a operar em condições normais, "apertados" entre conjunturas económicas desfavoráveis e quadros regulamentares cada vez mais densos e complexos. Neste artigo vou deixar de lado a questão mais global do interesse - por razões prudenciais, de eficácia da política monetária única e de rentabilidade - em encontrar soluções que permitam reduzir, em tempo útil, os níveis excessivos de crédito improdutivo. Pela sua importância económica e social, vou centrar as minhas observações numa questão que aflorei no último artigo - os níveis excessivos de crédito "improdutivo" de empresas que a generalidade dos bancos tem vindo a acumular nos seus balanços. Estes se, por um lado, reflectem o processo em marcha de reorganização e reorientação do nosso tecido produtivo - para além da deterioração das condições do mercado de crédito bancário -, por outro, faz correr o risco de desaparecimento de empresas viáveis e de destruição de emprego. Questões que deviam levar ao lançamento de um programa com um triplo objectivo: induzir um movimento de reorganização financeira das empresas com viabilidade económica, a braços com serviços insustentáveis de dívida bancária; retirar estas carteiras de crédito dos balanços dos bancos, em condições que estes possam absorver nas suas contas de exploração; lançar um movimento de diversificação das fontes e dos instrumentos de financiamento das PME, de modo a reduzir a extrema dependência em que se encontram da dívida bancária de curto prazo. Questão que na nossa economia assume uma importância crítica, na medida em que tem contribuído para a reprodução de um tecido produtivo atomizado, integrado por empresas de pequena dimensão - mesmo para PME - incapazes de sair de um permanente "aperto financeiro" que trava o seu crescimento. Esta dependência reflecte tanto os baixos níveis de fundos próprios da generalidade das PME, como a inexistência - nos nossos mercados financeiros - de fontes e de instrumentos de financiamento alternativos, a que os empresários possam recorrer. A manter-se, esta situação vai continuar a contribuir para a reprodução e a perpetuação de um tecido produtivo pouco eficiente, com dificuldades para se integrar e para competir nos mercados internacionais.

 

2. Permaneço convencido de que no centro de um tal programa devia ser colocada a nova instituição financeira - presumo que esteja activa? - operando de forma coordenada com o grupo financeiro público. Esta impulsionaria a criação de fundo(s) especializado(s), com recurso a fundos públicos e a garantias que lhes venham a permitir o lançamento de emissões nos mercados, dirigidas à atracção de investidores privados. Estes negociariam com os bancos a aquisição de créditos sobre empresas em dificuldades consideradas viáveis. Os níveis de aprovisionamento com que os bancos mantêm estes créditos, articulados com o risco actual dos devedores, reflectir-se-iam no valor de aquisição destas carteiras. O que, por sua vez, permitiria ao(s) fundos(s) negociar com as empresas programas de consolidação financeira e - quando necessário - de reorganização e redimensionamento. A acção destes fundos, para além de evitar o colapso de empresas viáveis, iria favorecer o desenvolvimento gradual de um mercado especializado no financiamento de PME. Questões para outro dia.   

 

Economista

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martinsvitor87a Há 1 semana

O "banco mau" é para ser pago por todos,a menos que haja "milagres"