João Costa Pinto
João Costa Pinto 19 de Dezembro de 2016 às 20:10

Para quê um banco público? - (LXXXVI)

Vivemos, tanto a nível interno como europeu, um período de "viragem" em que se joga o futuro do ambicioso projecto de integração financeira - monetária, bancária e dos mercados de capitais - da zona euro.

1. A importância da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e do seu Grupo - pessoalmente considero tratar-se de uma das principais Instituições da República - decorre de três tipos distintos de razões. Destas, duas são óbvias: por um lado, passa pelo grupo Caixa cerca de um terço das transacções financeiras da nossa economia; por outro, tem constituído um "refúgio" para os aforradores, em momentos de instabilidade e desconfiança. A terceira é de natureza distinta e refere-se não ao que a Caixa é hoje, mas ao que devia ser. Vivemos, tanto a nível interno como europeu, um período de "viragem" em que se joga o futuro do ambicioso projecto de integração financeira - monetária, bancária e dos mercados de capitais - da zona euro. As implicações económicas, sociais e políticas das dificuldades actuais estão a colocar ao nosso País desafios e problemas de grande complexidade. Entre estes avultam a estabilização dos nossos bancos - em termos de capitalização e de estrutura accionista - e a reorganização dos mercados financeiros, com o objectivo de preservar o acesso a fontes de financiamento e de diversificar os instrumentos de dívida. Questões que tenho vindo a abordar nesta coluna e que assumem uma maior acuidade e complexidade dada a prevalência na Europa do euro de pressões que estão a favorecer um movimento de concentração bancária, claramente desfavorável aos bancos das economias mais frágeis, como é o nosso caso.

 

2. É à luz deste quadro que deve ser avaliada a vantagem estratégica que representa o controle público de um intermediário financeiro com o peso e a influência da CGD. Este só faz sentido se esta Instituição for colocada no centro de um programa com um duplo objectivo: financiar actividades e sectores estratégicos da nossa economia e impulsionar um movimento de reorganização dos nossos mercados bancário e de capitais. Para tal, o programa que vai enquadrar a evolução futura da CGD devia ser desenhado em torno de duas questões centrais: por um lado, estabilizar as condições de exploração da Caixa - o que naturalmente passa por uma recapitalização em linha com as exigências prudenciais e pela reorganização e modernização da sua operação; por outro, recentrar o modelo de negócio da CGD com dois tipos de preocupações: consolidar e fortalecer a sua situação patrimonial e tranformá-la num instrumento de suporte, quer ao relançamento da actividade económica, quer a um esforço de modernização e de reposicionamento da nossa economia na Europa e nos mercados internacionais. Do programa de recapitalização acordado com as instâncias europeias, conheço as referências que são públicas. Mantenho por isso a expectativa de que este não tenha sacrificado a actuação estratégica da CGD e do seu Grupo, às exigências de uma maximização - mais ou menos rápida - das suas condições de exploração. Na verdade, para além da sua actuação como "pivot" central da modernização do Sistema Financeiro, está em causa a sua actividade internacional e a sua presença em regiões que estão a ser abandonadas por um mercado bancário em retracção. Questões para próximo artigo.

Economista
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comentários mais recentes
surpreso Há 2 dias

Sabes bem,que serve para arranjar tachos para amigos e negócios para compadres

Anónimo Há 2 dias

Para quê um banco público? - (LXXXVI)

PASSOS COELHO TAMBÉM TEM ESTA OPINIÃO!

Skizy Há 3 dias

O que a CGD junto com o BPN levaram ao estado dava para portugal sozinho pagar o projecto GPS europeu, o Galileu.