Bill McKibben
Bill McKibben 14 de junho de 2017 às 14:00

Parem de assegurar o desastre climático

Por motivos morais e económicos, chegou a altura de outros seguirem o exemplo da AXA e reconhecerem que os combustíveis fósseis não são seguráveis.

No mês passado, o Reino Unido desfrutou pela primeira vez, desde o início da Revolução Industrial, de um dia inteiro sem necessidade de energia a carvão. É uma notícia extraordinária – e um sinal do futuro que aí vem para o país que começou o romance secular da humanidade a queimar combustível proveniente das pedras negras.

Assim como o fax deu lugar ao email e o óleo de baleia deu lugar ao querosene, também o carvão está a dar lugar a formas mais limpas de energia. E essa mudança acontecerá mais depressa – talvez depressa o suficiente para nos deixar pelo menos abrandar o ritmo das alterações climáticas - se a poderosa e massiva indústria das seguradoras fizer a sua parte.

Ao subscrever o desenvolvimento da nossa sociedade industrial e o carvão que a tem alimentado, a indústria seguradora foi um dos impulsionadores cruciais, mas frequentemente negligenciado, da Revolução Industrial. "Isto só foi possível por causa das seguradoras", disse Henry Ford, ao olhar para o horizonte de Nova Iorque: "Sem seguros, não haveria nenhum arranha-céus. Nenhum investidor financiaria edifícios que uma beata de cigarro mal apagada pudesse reduzir a cinzas".

Através da sua capacidade de espalhar o risco por portefólios vastos, as seguradoras possibilitaram actividades de alto risco durante séculos. E isso também é verdade no caso das actividades que contribuem para o mais alto risco na história da humanidade: o aquecimento global.

Ainda que os representantes do sector declarem a sua intenção e paixão de controlar as alterações climáticas e assegurar um planeta habitável, nos bastidores os seus agentes ainda estão ocupados a trabalhar na sua magia financeira para garantir novas centrais eléctricas alimentadas a carvão, plataformas petrolíferas, areias asfálticas, gasodutos e outros projectos poluentes. Muitos destes projectos não seriam viáveis sem os serviços prestados pelas seguradoras em todo o mundo.

As seguradoras também estão entre os maiores proprietários de activos do mundo. Com 31,1 biliões de dólares de fundos sob gestão, no final de 2014, as seguradoras representam quase um terço de todos os activos institucionais na economia global.

A quantia exacta que estas empresas afundaram em projectos de combustíveis fósseis é desconhecida. Mas uma coisa é clara: para evitar que a temperatura do planeta suba mais de 2º celsius em relação ao seu nível pré-industrial, e evitar o aquecimento global descontrolado, precisamos que a maior parte dos nossos activos de carvão, petróleo e gás permaneçam por desenvolver.

 

Ironicamente, ao mesmo tempo que a compreensão profunda das ciências climáticas por parte das seguradoras as tornou nos primeiros actores da comunidade empresarial a reconhecer publicamente as alterações climáticas e a apelar à acção, a indústria continua a ser uma grande impulsionadora de projectos de combustíveis fósseis. As companhias de seguros criaram e sustentaram um ciclo perverso, através do qual facilitam projectos que causam o aquecimento global, ao mesmo tempo que fornecem seguros contra o impacto adverso destes projectos.

Graças à sua consciência precoce da necessidade de enfrentar as alterações climáticas, o pacto faustiano da indústria seguradora evitou até agora o escrutínio por parte de grupos de pressão. Mas isto está prestes a mudar.

No mês passado, a gigante francesa dos seguros, AXA, anunciou que já não irá fornecer serviços de subscrição às empresas que gerem mais de 50% da sua facturação em actividades ligadas ao carvão. Essa mudança baseia-se na decisão anterior da AXA de desinvestir nessas empresas.

Este é um passo fundamental para tornar o carvão num produto não segurável. Os factos não podiam ser mais claros: os combustíveis fósseis estão a provocar tantas alterações climáticas devastadoras e outras ameaças que, muito honestamente, fazer seguros para novas minas e energia gerada pelo carvão vai contra a gestão razoável de riscos financeiros. Como um dos maiores assassinos do planeta, que provoca milhões de mortes por ano através da poluição do ar, do aumento do nível do mar e do aumento de condições meteorológicas extremas, a combustão de carvão não deveria ser financiável.

A decisão da AXA é racional, baseada em factos indiscutíveis e numa visão realista do futuro. A actividade dos seguros, afinal, baseia-se na ideia de que o futuro lembra um pouco o passado, tornando-o previsível. Mas se continuarmos a aquecer o planeta, esse pressuposto desaparece. As seguradoras de propriedades costeiras já deitam as mãos à cabeça perante a dificuldade de perceber como subirá o nível do mar e quão violentas serão as tempestades futuras.

Por motivos morais e económicos, chegou a altura de outros seguirem o exemplo da AXA e de reconhecerem que os combustíveis fósseis não são seguráveis. Para estas empresas – e para todos nós – o melhor seguro é manter os combustíveis fósseis no sítio onde pertencem: no solo.

 

Bill McKibben é o fundador da 350.org.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
? 15.06.2017

Que se lixe o clima viva a economia, não como sol

alberto9 14.06.2017

As seguradoras querem é faturar, elas sabem que futuramente os problemas ambientais vão trazer problemas ao seu negócio, mas depois os outros que fechem a porta

bazanga 14.06.2017

Boa notícia.

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