Michelle Bachelet
Participação das mulheres no desenvolvimento sustentável
22 Junho 2012, 00:23 por Michelle Bachelet
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É evidente que não é possível atingir o desenvolvimento sustentável sem energia sustentável. Na verdade, o acesso à energia fomenta o desenvolvimento a vários níveis – nomeadamente no que diz respeito às mulheres e à sua saúde, à sua segurança e autonomia.
A Cimeira da Terra Rio 20 das Nações Unidas deste mês vai ser o palco para traçar o rumo em direcção a economias inclusivas, igualdade social e protecção do meio ambiente. Por essa razão, deve colocar o desenvolvimento sustentável no centro da agenda global.

É evidente que não é possível atingir o desenvolvimento sustentável sem energia sustentável. Na verdade, o acesso à energia fomenta o desenvolvimento a vários níveis – nomeadamente no que diz respeito às mulheres e à sua saúde, à sua segurança e autonomia.

Reconhecendo esta realidade, as Nações Unidas declararam 2012 como o Ano da Energia Sustentável para Todos, e o secretário-geral, Ban Ki-moon, lançou uma iniciativa global para atingir três objectivos ambiciosos em 2030: o acesso universal a serviços de energia modernos, a duplicação da taxa global de crescimento da eficiência energética, e a duplicação da percentagem de energia renovável no total da energia global.

Estes são temas globais. Mas, em todo o mundo, a energia é um tema das mulheres. Pode significar a diferença entre segurança e medo, liberdade e escravidão, e mesmo entre a vida e a morte.

Em muitos lugares, especialmente nas zonas rurais, as mulheres passam longas horas à procura de combustível onde quer que seja, à falta de fontes de energia sustentável. A nível global, 1,3 mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à electricidade, e 2,7 mil milhões de pessoas, na sua maioria mulheres, utilizam madeira, carvão e estrume para cozinhar. Seja quando saem para procurar madeira, o que as expõe a elas e às suas filhas ao perigo da violação, seja quando gastam os seus escassos recursos a comprar querosene para obter uma iluminação ineficiente, as mulheres tomam decisões difíceis todos os dias sobre os recursos energéticos domésticos e a sua utilização.

São também as mulheres que sofrem os efeitos desproporcionados das fontes de energia não sustentável sobre a saúde. A exposição ao fumo produzido pelos métodos perigosos de cozinhar, aquecer, e iluminar mata 2 milhões de pessoas por ano, 85% das quais mulheres e crianças que morrem de cancro, infecções respiratórias e doenças pulmonares. Muitos mais milhões sofrem de doenças relacionadas com a exposição.

No plano comunitário, a falta de energia em clínicas de medicina impede os profissionais de saúde de prestar os tratamentos e os cuidados adequados. Estima-se que entre 200 a 400 mil estabelecimentos de saúde em países desenvolvidos não têm acesso a electricidade segura e fiável. Isto significa que as vacinas e o sangue não estão armazenados de forma segura, que o equipamento de diagnóstico é muitas vezes inútil, e que as salas de operações não podem funcionar à noite.

Para as mulheres grávidas, esta falta de electricidade segura e fiável coloca sérios riscos às suas vidas e dos seus bebés. Em todo o mundo, 800 mulheres morrem todos os dias devido a complicações na gravidez ou no parto, e a grande maioria destas mortes poderia evitar-se com serviços de saúde de qualidade, para os quais a electricidade é normalmente indispensável.

Hoje, as longas horas de trabalho não remunerado que as mulheres realizam todos os dias, à procura de madeira e outras fontes de energia, retira-lhes tempo para participarem nas actividades mais produtivas. Por sua vez, isso priva as famílias mais pobres de rendimentos fundamentais.

Não tem de ser assim. No Quénia, a utilização de fogões a lenha melhorados reduziu em 40% as necessidades de combustíveis, o que não só diminuiu a carga de trabalho não remunerado das mulheres, e a desflorestação, como também permitiu que as mulheres dediquem mais tempo à educação, formação, e ao trabalho remunerado que irá reduzir a pobreza.

O fornecimento de energia sustentável para todos criará novas oportunidades também para as mulheres de outros lugares. A energia solar pode dotar povoações inteiras de iluminação, bombas de água, refrigeração e electrificação de centros de saúde, escolas e outros serviços públicos.

Além disso, a energia renovável pode ser uma janela para o mundo exterior, através do acesso a telemóveis, Internet, televisão, rádio, e do fornecimento a pequenas, médias e grandes empresas. E a disponibilidade de iluminação exterior pode prevenir a violência contra mulheres e crianças.

Atingir o objectivo da energia sustentável para todos requer a participação plena das mulheres. Os casos da Índia e do Nepal mostram que o envolvimento das mulheres na tomada de decisões está associado a uma melhor gestão ambiental local. E, de acordo com um estudo global, os países que têm uma representação mais elevada de mulheres no parlamento estão mais dispostos a ratificar tratados ambientais internacionais.

Como a Declaração da Rio, adoptada na primeira Cimeira da Terra, em 1992, sustenta: "As mulheres desempenham um papel vital na gestão e desenvolvimento ambiental. A sua participação total é, por isso, essencial para atingir o desenvolvimento sustentável".

Vinte anos depois, com exigências ainda mais elevadas, não podemos mais admitir a inacção. É por essa razão que estamos a trazer o princípio da igualdade de género para o centro da discussão, para atingir o objectivo da energia sustentável para todos em 2030.

Project Syndicate, 2012.

www.project-syndicate.org

Tradução: Rita Faria

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