Fernando  Sobral
Fernando Sobral 02 de julho de 2017 às 19:13

Passos, um homem só

Invocar suicídios (fictícios, no caso), para tirar dividendos políticos, é o grau zero da política. Já nem é política.

Num dos melhores momentos de "Sim, sr. Primeiro-ministro", Humphrey e Hacker tentam decidir o que fazer a uma personagem pública. Diz Humphrey: "Dê-lhe algo importante. Pelo que é que ele se interessa? Pela televisão?" Responde Hacker: "Ele nem sequer tem televisor." E Humphrey propõe: "Óptimo. Faça dele governador da BBC." Em Portugal muitos cargos públicos também se decidem assim. Talvez por isso, como neste lamentável "reality show" pós-incêndios em que se tenta descobrir um culpado para ser incinerado em praça pública para que as consciências pesadas durmam tranquilas, se perceba melhor parte da raiz do problema. Como se não bastasse, e tivesse havido um conluio de Hacker e Humphrey, Pedro Passos Coelho, à falta de melhor cargo, viu-se entronizado como líder do PSD. Azar o dos social-democratas que vão assistindo, como voluntários de uma carga da brigada ligeira, ao lento suicídio de alguém que gostaria de ser lembrado como salvador da pátria. É um folhetim triste e escusado.

 

Não tendo podido ser escolhido para administrador da RTP, talvez porque veja televisão e goste de aparecer nela, Passos Coelho decidiu utilizar como munições os eventuais suicídios de quem foi afectado pelos incêndios de Pedrógão Grande. Fez eco de um sussurro de alguém que quer ser líder autárquico pelo PSD na localidade e que acumula isso com o cargo de dirigente da Misericórdia local, o que nos diz muito sobre os jogos políticos neste país. Este, que se sabia, não se demitiu pelo que disse a Passos Coelho. E este pediu desculpa. Só que isso não apaga esta lógica de "far-west" que se instalou na política nacional. Passos Coelho, se tivesse tento na língua e sensatez política, não levantava um tema que se pode sempre virar, como um "boomerang", contra ele. Invocar suicídios (fictícios, no caso), para tirar dividendos políticos, é o grau zero da política. Já nem é política. É a guerra civil do "Facebook", onde todos insultam todos, transformada em pretenso discurso iluminado. Depois disto, Passos Coelho está só. Irremediavelmente só.

 

Grande repórter

pub