Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 23 de Outubro de 2016 às 20:00

Pauzinhos na geringonça

A lua-de-mel da geringonça teve uma duração acima de todas as expectativas. O enlace ainda parece sólido, mas do Bloco e do PCP surgem sinais de divergência.

É o primeiro teste à capacidade negocial do Governo de António Costa, que até agora geriu com mestria a relação com os parceiros da esquerda. Mas se este ano já há complicações, é de prever que no próximo Orçamento o choque seja ainda maior, porque a economia não vai crescer de forma a gerar dinheiro que apegue todos os fogos políticos.

 

Catarina Martins já está a colocar os primeiros pauzinhos na engrenagem. Os salários dos gestores da Caixa e importantes divergências sobre o Orçamento geram um afastamento crítico do Bloco face ao Governo.

 

Logo após o anúncio por parte do ministro das Finanças dos salários da administração da Caixa, que atribui o equivalente a 57 salários mínimos de rendimento base a António Domingues, Catarina Martins tornou pública a discordância.

 

Banqueiros com salários elevados sempre foram um alvo do Bloco. Não criticaram o diploma que Marcelo promulgou, mas perante a notícia concreta, os bloquistas não ficaram amarrados à parceria política.

 

Quanto ao Orçamento, a demissão da representante do Bloco no grupo de trabalho que fazia a ligação do Governo com os paridos que o sustentam no Parlamento, pressagia conflitos graves no seio da maioria de esquerda. E a entrevista de Catarina Martins ao Jornal de Negócios consubstancia as diferenças relevantes entre as escolhas do Governo e as preferências do Bloco.

 

Pensões mínimas, sobretaxa, deduções na educação, são pontos de divergência, mas a pedra de toque, que no fundo é a grande diferença entre o PS e os seus parceiros de esquerda, prende-se com a posição face ao Tratado Orçamental. Bloco e PCP recusam a sujeição aos critérios.

 

E nesta união de facto heterodoxa, em que o Governo faz negociações em separado, já que o Bloco e o PCP recusam aparecer na mesma foto de família, o PCP também já marcou posição. Jerónimo de Sousa, que também condena os salários dos novos gestores da Caixa, avisou que o seu partido não passa "cheques em branco" e avisa para a necessidade da reestruturação da dívida, um assunto que o Governo não tem condições de discutir actualmente.

 

António Costa já deu parcialmente algumas bandeiras ao PCP, desde a actualização das reformas até 10 euros, chumbo da actualização das rendas. Mas, naturalmente os comunistas querem algo mais.

 

Tudo isto é política e, obviamente, a aprovação do Orçamento para 2017 não está em risco. Na hora de votar e depois de todas as negociações, PCP e Bloco vão dar aval ao documento e ao Governo de António Costa.

 

Mas mesmo os cheques em branco têm prazo de validade. No próximo ano, antes da apresentação do Orçamento há eleições autárquicas. Para já, o Governo dá um sinal de reforço para as autarquias. O PS é o partido que controla mais municípios, mas o PCP também tem uma posição importante a defender. O resultado das eleições vai ser decisivo para a continuação do ciclo político e para a discussão do Orçamento de 2018. Daqui a um ano se verá se este inédito casamento à esquerda é para durar, ou se pelo contrário, acaba num divórcio ainda mais mediático do que o de Pinto da Costa, com a agravante de não haver bens, jóias, nem pensões de alimentos.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Bom artigo, no entanto reconheço que actualmente temos menos grãos na engrenagem que em 2013 com a irrevogável saída de Paulo Portas e com sucessivos orçamentos retificativos...

Manuel Cabral Há 1 semana

Senhor director-adjunto, tenha calma, porque o seu desejo poderá ser ou não satisfeito, porque na geringonça oposta, nem tudo são rosas, pois a crista anda mais levantada.