Edson Athayde
Edson Athayde 04 de dezembro de 2017 às 19:21

Pedro

Assim como não escolhemos os nossos amigos do recreio (somos sempre escolhidos) também não podemos decidir quando o pátio ficará cheio ou vazio.

Os homens nunca crescem, apenas fingem crescer.

 

Este não chega a ser um segredo de Estado. As evidências estão à vista de todos.

 

É apenas por pudor que a sociedade como um todo se recusa a admitir que o mundo não passa de um pátio de recreio para miúdos que simulam ser médicos respeitáveis, generais implacáveis, publicitários famosos, jornalistas sérios.

 

Não somos.

 

Falo da natureza masculina por não ter a certeza de que com as mulheres seja igual. Se for, ótimo. Se não for, explico.

 

Não há nada mais motivador para um rapaz do que sair de casa e encontrar na rua um outro miúdo com quem possamos ir a jogo. Pode ser à bola, fazer empresas, construir foguetões, pilotar aviões, defender Esparta, disputar uma partida de xadrez.

 

Assim somos.

 

Nos últimos vinte anos, um desses miúdos que estava sempre disposto a jogar comigo era o Pedro Rolo Duarte.

 

Nessas duas décadas, poucos foram os projetos em que ele esteve metido e em que, nem que fosse por um brevíssimo momento, eu também não estivesse. E vice-versa.

 

Tive o particular orgulho de desenhar um programa de TV que ele liderou (o "Canal Aberto", na RTP) e plantar e regar a ideia que resultaria no DNA (suplemento mítico do Diário de Notícias, que ele dirigiu).

 

Curiosamente, pouca gente deu por essa constante parceria. Normal, os miúdos às vezes são assim.

 

Nunca fomos de partilhar a mesa com mais gente. A nossa forma de nos relacionar sequer incluía amigos comuns. A remexer na memória, encontro um sem-fim de jantares a dois e poucos, muito poucos, momentos em grupo. Nunca falámos sobre isto.

 

Mas o motivo deste texto tem que ver com a função original desta coluna, tratar de temas ligados à comunicação.

 

Pois a comunicação em Portugal deve muito ao Pedro.

 

Ele soube formar melhores jornalistas, ouvintes, leitores, telespectadores. Sempre através de veículos bem feitos como a K, o Independente, a Visão, o já citado DNA, o Hotel Babilónia (só para sublinhar os mais notórios).

 

Foi um incansável promotor do bom gosto, da inteligência, de um certo cosmopolitismo.

 

Foi generoso onde muitos seriam egoístas. Foi líder, agregador, companheiro.

 

Daí o sem-fim de homenagens que está a receber de tantas pessoas (as mais sinceras e comoventes vindas de quem não conheceu mais do que a sua voz através da telefonia).

 

Claro está que a vida continua. No nosso último encontro falámos sobre isto: da necessidade de a vida continuar, da forma que for, do jeito que dá.

 

Assim como não escolhemos os nossos amigos do recreio (somos sempre escolhidos) também não podemos decidir quando o pátio ficará cheio ou vazio.

 

Pois o meu pátio acaba de ficar muitíssimo mais vazio.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, citando Mário Quintana, lembrando o eterno jeito de garoto do Pedro: "Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho/Eles passarão.../Eu passarinho."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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