Manuel Esteves
Manuel Esteves 06 de outubro de 2017 às 18:29

Pedro Romano, estarás sempre no nosso horizonte

Durante os quatro anos seguidos em que trabalhei com o Pedro Romano, primeiro no Diário Económico, depois no Jornal de Negócios, sabia que não lhe podia pedir um número de telefone de alguém.

Essa era uma oportunidade que ele não perdia para dar o seu próprio número e depois fazer passar-se pela pessoa, imitando-lhe a voz e conduzindo a conversa para situações absurdas. Eu escapei mas vi vários colegas caírem na armadilha. Depois da surpresa, seguiam-se as gargalhadas.

Do Romano, como também o tratávamos, guardamos na memória esse seu lado divertido e imprevisível. Mas guardamos muito mais: todos sabemos que era impossível escrever sobre economia de uma forma mais clara e simples. Aos 30 e poucos anos, primeiro na imprensa e depois em blogues por conta própria, o Pedro Romano foi-se afirmando como um dos melhores comunicadores na área económica. Opinava, mas o que mais o distinguia era o seu talento para ensinar, desmistificar, aprofundar.

O Pedro nunca coube em categorias e sempre foi desconcertante. Era um dos mais jovens entre nós, mas os seus gostos batiam pouco com os colegas da sua idade; era dos jornalistas menos experientes, mas um dos que mais sabia de economia; o humor dele era disruptivo e ia do brejeiro ao mais refinado e até erudito. A sua calma e serenidade transformavam-se em desvario e transgressão ao virar da esquina.

Politicamente, baralhava toda a gente: uns viam-no como de esquerda, outros de direita. É que o Pedro adorava desmontar narrativas e desfazer certezas, tinha sempre uma pergunta desconfortável na ponta da língua e um olhar vindo de uma perspectiva diferente.

A partida do Romano não provoca apenas saudades. Essas já as sentia muitas vezes, agora que o via menos. Provoca espanto. Raiva. E uma infinita e inconsolável tristeza.

O Pedro partiu e deixou-nos para trás. Mas ficará para sempre no horizonte das nossas vidas.

Um grande, grande abraço.

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