Bruno Bobone
Bruno Bobone 27 de Novembro de 2016 às 19:05

Pensar hoje para salvar amanhã

Passou já quase um ano desde que manifestei publicamente a minha preocupação sobre a inexistência de um banco vocacionado e focado na economia portuguesa. Na altura falei de um banco de capitais portugueses.

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Fazia para mim sentido que existisse uma instituição financeira focada em Portugal, pertencente a empresários portugueses, que ajudasse a desenvolver a economia portuguesa.

 

Hoje estou convencido de que aquilo que verdadeiramente importa é a focalização no mercado português. Ainda que não deixe de ser muito relevante para a estruturação da economia nacional poder contar com empresários portugueses para que tenham iniciativas em sectores fundamentais, é, contudo, mais importante no imediato poder contar com uma instituição bancária focalizada no nosso mercado. E é fundamental que essa instituição possa assegurar o apoio às empresas portuguesas, permitindo que se estruturem para que possam crescer e competir nos mercados em que se encontram.

 

Quando falávamos da necessidade da manutenção ou criação de um banco de capitais portugueses, muitos foram os que disseram que já tínhamos um banco português - a Caixa Geral de Depósitos - e que seria esse o banco que apoiaria no futuro as empresas portuguesas.

 

Independentemente de concordar com a relevância desta instituição, com a sua função estratégica e a sua importância na promoção do desenvolvimento e crescimento para a economia, a verdade é que o sector económico privado para cumprir verdadeiramente a sua missão não pode depender de uma empresa pública, sob pena de lhe retirar vigor e autonomia.

 

Não é possível assegurar ao mercado que a autonomia que hoje se advoga para a gestão do banco público se venha a concretizar no futuro, pelo que a solução agora escolhida seria a razão do falhanço da economia privada portuguesa, ou seja, das suas empresas.

 

As empresas nacionais hoje encontram-se numa situação financeira muito difícil. Estão muito descapitalizadas e com dificuldade no acesso ao crédito. A avaliação de risco tornou-se excessivamente prudente e os bancos têm dificuldades em apoiar empresas que economicamente são viáveis, mas que atravessam dificuldades financeiras. Este ciclo pode levar ao seu desaparecimento.

 

São estas empresas as responsáveis por muitos dos postos de trabalho criados nos últimos anos e as mesmas que durante o período mais duro da crise promoveram o aumento das exportações dos produtos portugueses, sendo responsáveis pela saída da situação em que Portugal se encontrava.

 

Em Portugal, temos hoje alguns bancos com as características essenciais para apoiarem as nossas empresas. Excluindo o Novo Banco, que está neste momento num tempo de redefinição, temos pelo menos três instituições que devemos proteger, promover e ajudar para que possam vir a ser nos próximos anos os bancos vocacionados para as empresas portuguesas. 

 

O Banco Millennium BCP, o Montepio e o Banco Postal, cada um na sua dimensão e no seu ritmo, são as instituições que temos para garantir o futuro dos nossas empresas. A estes, pode e deve juntar-se a Caixa Geral de Depósitos que, com a sua vocação estratégica, a sua ligação aos decisores da estratégia política, deverá ajudar a promover com maior força as empresas que pertençam aos sectores em que o Estado mais queira apostar para fazer o caminho do nosso país.

 

Todas as restantes instituições bancárias serão importantes ao crescimento da economia nacional e colaborarão para o fortalecimento das nossas empresas e instituições, mas não tenhamos qualquer dúvida de que nos momentos difíceis não poderão ajudar-nos da mesma forma que os bancos acima referidos,  principalmente porque os mercados onde estão sediados não lho permitirão.

 

É, por isso, muito importante dar hoje força àqueles que, amanhã, vão apoiar-nos nos momentos mais difíceis. É importante que o façam as empresas e os empresários e é importante que faça o Governo, tanto interna como externamente. Desde logo assegurando que estas instituições não sejam atrofiadas por juros fictícios que foram determinados em momentos de taxas de juros mais altas e que não foram entretanto renegociados, sem que se saiba o porquê desta injustiça que tanto prejudica a saúde financeira do nosso mercado.

 

Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa

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