João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 28 de dezembro de 2017 às 21:10

Perspetivas para o próximo ano

Este artigo era para ser um artigo otimista. O ano económico de 2017 foi positivo para Portugal, e também para a generalidade dos países europeus e do chamado mundo desenvolvido. Mesmo os países em desenvolvimento tiveram uma evolução genericamente favorável.

Ao fazer a revista mental dos factos do ano que agora termina, os acontecimentos políticos dominam. E tudo parece ter corrido melhor do que o esperado. O comportamento da administração americana criou mais ruído cansativo do que problemas.

 

E os resultados eleitorais nos países mais relevantes acabaram por ser marcados por uma certa normalidade. Embora pontas soltas significativas subsistam nas maiores democracias mundiais.

 

O governo britânico enviou, extemporaneamente, uma carta para a União Europeia no dia 28 de março invocando o artigo 55 do Tratado de Lisboa, e no resto do ano, e após umas eleições antecipadas para junho, o comportamento do governo britânico foi mais moderado do que o inicialmente previsto.

 

Em França, as eleições presidenciais trouxeram uma grande surpresa. Mas o jovem Presidente eleito parece ser um homem moderado e construtivo. E pode ser capaz de agregar um movimento com alguma identidade programática. Esse programa tem ainda de ser escrito para que a adesão dos apoiantes tenha algum significado.

 

Em Espanha, um governo moderado que demorou muito tempo até se formar no final de 2016, embora sem maioria parlamentar, teve muitas dificuldades em lidar com o desafio disfuncional do comportamento e decisões do governo regional catalão. A situação permanece ambígua e confusa, e é difícil antever exatamente se haverá ou não um novo governo regional, na sequência das eleições de dezembro na Catalunha. E se esse governo regional continuará a desafiar a ordem legal interna de Espanha ou se espoletará uma crise constitucional a nível nacional.

 

Finalmente, na fiável Alemanha, houve eleições que produziram um Parlamento com muitos deputados, mas em que a formação de um governo estável parece uma tarefa hercúlea. Adiada para 2018, apesar de as eleições já terem sido em setembro. Um vazio de poder na Alemanha e na Europa e o risco de perder a liderança de Angela Merkel, que se apresentou ao longo dos últimos anos como a líder mundial mais respeitada. A sua eventual substituição, inevitável a prazo, será um momento de risco para a Alemanha, a Europa e o mundo.

 

Ainda assim, o dia que marcou este ano foi o 29 de agosto, quando um míssil balístico lançado pela Coreia do Norte sobrevoou o Japão e tornou o risco de uma guerra nuclear, sempre considerado como impensável, em algo pensável. Os cientistas tinham colocado, em janeiro de 2017, o "doomsday clock" em dois minutos e meio para a meia-noite (https://thebulletin.org/timeline). O valor mais baixo desde 1953, antes de eu e a maioria dos meus leitores ter nascido. O valor mais alto ocorreu em 1991 com o acordo START I e o fim da União Soviética. Os cientistas anteciparam os riscos do comportamento errático do jovem líder da Coreia do Norte combinado com uma administração americana convicta no uso do fator surpresa, ou mesmo a mera espontaneidade, nas relações internacionais. O que a mim não me parece nada uma boa ideia.

 

O próximo ano afigura-se assim de continuidade. O que é bom. Porque tudo correu razoavelmente bem na cena internacional. Entre nós, o bom ano económico e orçamental não apaga as trágicas mortes provocadas pelos incêndios de Pedrógão e de outubro. E que exibiram um Estado que se preocupa primeiro com os seus.

 

O prolongamento do ambiente deste ano para o próximo é assim uma novidade positiva diferente daquilo a que estávamos habituados desde 2008.

 

As eleições de meio mandato nos EUA no próximo novembro serão o acontecimento político mais antecipado. Toda a Câmara dos Representantes vai a votos bem como cerca de um terço do Senado. As mudanças tanto podem ser para melhor, e ao encontro dos meus desejos, como para pior.

 

O ambiente de otimismo moderado para o próximo ano não deve esconder os muitos riscos. A maioria deles de natureza geoestratégica ou política. E que para Portugal vêm do exterior.

 

A sorte que protegeu o mundo em 2017 pode ser ingrata no próximo ano. E a humanidade está invulgarmente carente de líderes políticos com vontade, capacidade e autoridade.

 

O próximo ano pode vir a exigir o melhor de nós. Espero que todos estejamos à altura.

 

Professor Católica Lisbon School of Business & Economics.Universidade Católica Portuguesa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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