Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 24 de Outubro de 2016 às 19:25

Pessoas e números

A política não deixou de ser o que sempre foi, a conquista do poder para governar. Porém, o modo como se conquista o poder condiciona o que vai ser a governação, sobretudo se os números que se utilizam para capturar os votos.

A FRASE...

"Défice sem Banif ficou abaixo de 3% em 2015. Revisão do INE baixa saldo para 2,98% e valor sem efeitos extraordinários pode ser ainda menor."

Expresso, 22 de Outubro de 2016

A ANÁLISE...

Foi proclamado, num período crítico da evolução da economia portuguesa (quando os juros desciam e o crédito era fácil), que as pessoas não são números. Alguém recordou, então, que as pessoas não são números mas vivem dos números e, sobretudo, querem números. Passou o tempo, viveram-se dramas e tragédias, ilusões e enganos, sempre a acumular dívida, até se chegar ao presente e verificar que a política portuguesa se referencia a um número (o défice orçamental) e se determina por um castigo (o procedimento por défice excessivo). As pessoas continuam a ser pessoas, os números é que não satisfazem as suas expectativas nem validam as promessas com que os partidos capturam votos e procuram satisfazer clientelas.

A política não deixou de ser o que sempre foi, a conquista do poder para governar. Porém, o modo como se conquista o poder condiciona o que vai ser a governação, sobretudo se os números que se utilizam para capturar os votos e para prometer a satisfação das clientelas não são os números que descrevem a realidade. Quando se escolhe esta via para conquistar o poder, não vai ser possível governar, porque vai ser preciso esconder o que se fez para ocupar o poder. Depois de um programa de resgate desenhado pelos credores e executado com a oposição dos que tinham governado até à evidência da bancarrota, organizou-se a ocupação do poder com a promessa da reversão das políticas de ajustamento, anunciando que elas nem sequer tinham permitido sair da punição do défice excessivo. Afinal, os números não eram o que se quis que fossem.

O défice orçamental não é um alicerce em que se possa basear uma política. O défice é apenas o contributo anual para a acumulação da dívida. Enquanto não se quiser enfrentar a questão da dívida, não haverá exercício do poder e as pessoas serão apenas números.

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Fernando Ferreira Há 2 semanas

"[...] sobretudo se os números [...]"??? Parece ser antes "[...] sobretudo com os números [...]"...