Edson Athayde
Edson Athayde 17 de janeiro de 2018 às 09:00

Piadas secas

O humor também profetiza. Há dois ou três anos, dizer que poderia haver uma disputa eleitoral entre Trump e Oprah para Presidente dos EUA seria claramente algo cómico.

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O humor é uma questão de tempo: esta é a regra número um da comédia.

 

Para fazer rir é preciso saber a hora certa de revirar os olhos ou fazer um falsete na voz ou fazer explodir (com um comentário, um interjeição ou um banal suspiro) tudo o que de racional estiver construído.

 

Humor é espanto, é terror, é contradição. Rimos do que assusta, ofenda, destrua. Não há humor bonzinho. Só há humor quando ferino.

 

Mas, voltando ao começo, no humor o tempo é tudo. Conceito que se expande até à noção do tempo medido pelo calendário. Algo que hoje é triste ou calamitoso amanhã poderá ser motivo de anedota.

 

Tal noção da ação do tempo nos nossos humores é transversal a quase todas as culturas. Muito do humor judaico vem de gozar com as vicissitudes e os preconceitos que os judeus enfrentaram ao longo dos milénios. Os americanos têm a expressão "too soon", utilizada para referenciar uma piada feita demasiado cedo para as sensibilidades do momento.

 

O humor também profetiza. Há dois ou três anos, dizer que poderia haver uma disputa eleitoral entre Trump e Oprah para Presidente dos EUA seria claramente algo cómico.

 

Hoje não é. Nem chiste, nem pilhéria, nem chacota, nem gracejo. É apenas o mundo como ele é, como deixámos que passasse a ser.

 

Há muito que prego que a sociedade de informação descambou para uma ditadura das narrativas; que vivemos uma era da desatenção, em que só quem tiver boas histórias para contar (e souber como as contar) conseguirá ser relevante, sobreviver no mercado, atrair votos.

 

Os media têm declarado surpresa pela entrada de leão dos famosos na arena política. Há nisto um pouco de cinismo. Os media sabem que as pessoas não cansaram dos políticos ontem ou na semana passada. O tal cansaço vem de décadas, de séculos ou de sempre. O que não havia era uma real alternativa a eles.

 

Agora há: celebridades, artistas, desportistas e, principalmente, comunicadores. Como nunca antes na História, eles estão disponíveis a serem eleitos (o que é diferente de entrar na política) e, assim, conseguir mais e mais aplausos.

 

Os políticos são vaidosos e gostam de holofotes. Para ocupar os cargos mais altos precisam de ser conhecidos ou darem-se a conhecer. As suas vidas privadas tornam-se públicas. Se são importantes, tomam posições que influenciam o comportamento da sociedade.

 

Troque uma ou outra palavra no parágrafo acima e teremos boas definições para os famosos dos dias de hoje.

 

Logo, se as fronteiras entre as duas, digamos, profissões se tornaram tão esbatidas, porque não haver fluidez entre elas?

 

Al Gore é um caso exemplar. Abriu mão de uma segunda tentativa de se candidatar à Casa Branca para abraçar o "show business". Obama sempre navegou entre os dois mundos. Trump radicalizou essa opção.

 

Não sei se Oprah irá ou não concorrer à presidência. Se sim (e a alternativa for o atual mandatário), pode já contar com o meu voto. O que não deixa de ter a sua piada. E ser também profundamente trágico.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "O humor é o bom senso que tomou uns copos."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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comentários mais recentes
Alfon Há 1 dia

Obama não navegou entre os dois mundos.

Ciifrão Há 1 dia

Os jornalistas não têm de se surpreender com a entrada na política dos artistas de variedades, os políticos de carreira por eles promovidos também não passam disso.