Paulo Carmona
Paulo Carmona 17 de julho de 2017 às 20:57

Pobres somos nós 

Porque pobres de facto somos nós todos, os portugueses. Uma pobreza que vem desde a adesão ao euro, que implicava ganhos de produtividade associados a uma moeda forte e que nós preferimos descansar à sombra.

A FRASE...

 

"Há o sentimento generalizado na sociedade de que o sistema atual não serve ou é injusto. Mais de um quarto da população da OCDE encara a globalização como uma ameaça."

 

José ángel Gurría, secretário-geral da OCDE na AR, Público, 4 de julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O sistema atual é tão injusto como qualquer outro sistema, nem melhor, nem pior, apenas muito diferente do passado. Porque tudo aquilo que nós aprendemos como regras de uma sociedade capitalista foi sendo derrubado, uma após a outra. Com os movimentos de rutura tecnológica associados a uma globalização que encolheu o mundo, tudo é mais rápido e tudo é mais perto.

 

Até nas ditas classes sociais. O rico de hoje não é mais o industrial ou o herdeiro dinástico de uma riqueza antiga. A voracidade e velocidade do mundo destrói e constrói fortunas rapidamente. Hoje os ricos são um Sr. Armando Pereira que veio de feirante para dono da PT e da TVI, uns donos da Zara ou do IKEA com origens humildes, um jovem que criou um jogo ou uma aplicação na internet algures no mundo, ou um ditador africano que persiste em esmifrar os recursos e o povo do seu país. Por cá, muitos dos nossos ricos mais conhecidos se tivessem de pagar as dívidas sobraria pouco…

 

E os pobres? Os antigos proletários de todo o mundo uniram-se e concentraram-se na China e no Vietname, as fábricas do mundo, países de ideologia comunista, de baixos salários e condições, sem essa "maçada" dos sindicatos, e que vão destruindo emprego e salários um pouco por todo o mundo. Por cá não temos verdadeiramente pobres como noutros países, e ainda bem. Há mais dificuldades e pobreza envergonhada numa classe média carregada de dívidas e impostos do que na dita classe baixa.

 

Porque pobres de facto somos nós todos, os portugueses. Uma pobreza que vem desde a adesão ao euro, que implicava ganhos de produtividade associados a uma moeda forte e que nós preferimos descansar à sombra, embalados por conversas políticas que nos sabiam bem. Os nossos salários e rendimentos líquidos não crescem, somos ultrapassados em produção de riqueza pelos nossos parceiros do Leste europeu, e o que fazemos? Endividamo-nos cada vez para consumir e manter o nível de vida, embalados por mais uma conversa sobre reposição de rendimentos, que não chega para compensar a inflação, e promessas de um futuro rosado… sem austeridade nem coisas más, o dinheiro há de aparecer… O canto da sereia que nos leva para o fundo do mar.

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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