Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 23 de outubro de 2017 às 19:52

Poder e possibilidade

É a política que denuncia e elimina os que têm como intenção comercializar a política, porque isso está além do campo de possibilidades, está no vazio.

A FRASE...

 

"Não foi a acusação que destruiu a presunção de inocência. Foi a presunção de José Sócrates que destruiu a nossa inocência."

 

Clara Ferreira Alves, Expresso, 14 de Outubro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Não é a lei comum, nem a Constituição, que podem ser barreiras eficazes contra o aluguer de políticos para que tomem decisões que têm como motivação distribuir benefícios por alguns e encargos por muitos. E quem pensar que lhe é permitido tudo aquilo que a lei comum, ou a Constituição, não proíba, nem sequer merece o atributo de político. O que controla a política, limitando-a ou amplificando-a, é a própria política, porque quem tem capacidade política sabe distinguir o possível do impossível, recusando entrar por caminhos que conduzam ao impossível.

 

O exercício do poder é a gestão de um campo de possibilidades, é o desenho de uma trajectória que leva do presente, com os recursos que existem, para um alvo no futuro, gerando e organizando os recursos necessários para se chegar a esse objectivo. Quem não souber que a política é a gestão de um campo de possibilidades não é político - e se exerce uma função política é por razões que não são políticas. Quem não souber desenhar uma estratégia para o futuro poderá ocupar o poder, mas não exercerá o poder, apenas se resignará à inércia das correlações de forças. A política é uma vocação, que identifica e estrutura possibilidades para atingir objectivos compatíveis com essas possibilidades. Quem trair essa vocação e aceitar ser alugado para satisfazer interesses particulares condena-se ao fracasso, avança para a impossibilidade. É a política que irá destruir os que nunca tiveram vocação política, apenas tinham interesses. É a política que denuncia e elimina os que têm como intenção comercializar a política, porque isso está além do campo de possibilidades, está no vazio.

 

Nada do que aconteceu a José Sócrates, desde que ocupou o lugar do poder, é inesperado. Quem tivesse observado as suas decisões e o modo como o seu discurso político ocultava as suas intenções sabia que terminaria na impossibilidade. Quem aceitasse alugá-lo terminaria como ele. Nem a lei comum, nem a Constituição, funcionaram para evitar o caminho para o impossível. Mas a política funcionou.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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