Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 22 de janeiro de 2018 às 20:12

Poder para quê?

Tanto a estratégia de alianças como a negociação de uma aliança em concreto são dispositivos de ocultação do que se vai fazer depois de conquistar o poder.

A FRASE...

 

"Mesmo que o nosso problema da dívida, ou do défice e da despesa, fosse resolvido, nem assim teríamos garantias de crescer de forma sustentada e sustentável porque as alavancas do crescimento estão avariadas há muito tempo."

 

Jorge Moreira da Silva, Diário de Notícias, Dinheiro Vivo, 20 de Janeiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A febre das alianças ataca aqueles que não acreditam na sua capacidade para mobilizar a maioria do eleitorado para um projecto de desenvolvimento e modernização. Pode ser o resultado de uma avaliação realista das suas qualidades, porque não sabem como reduzir a despesa e aumentar a receita, condições para anular os défices que geram a dívida - e como não sabem, esperam pela aliança depois das eleições para esconderem a sua incapacidade. Mas também pode ser o resultado de uma avaliação das possibilidades políticas, quando sabem que o que é preciso fazer não tem correspondência nas preferências do eleitorado, porque este quer que a despesa cresça e não quer participar no aumento das receitas - e como o eleitorado é assim, será preciso recorrer a uma aliança para mostrar ao eleitorado a força do que tem de ser.

 

Os que concorrem a eleições sabem que não poderá ser anunciado ao eleitorado o que terá de ser feito depois de conquistado o poder. Tanto a estratégia de alianças como a negociação de uma aliança em concreto são dispositivos de ocultação do que se vai fazer depois de conquistar o poder. A legitimidade que se obtém nas eleições está viciada, porque não se apresenta o que se sabe que terá de ser feito. E as eleições não são uma oportunidade de informação e de configuração do eleitorado, mostrando que quando mudam as condições de desenvolvimento e de modernização também devem mudar as convicções e as preferências dos eleitores. As alavancas do crescimento estão avariadas há muito tempo porque os dispositivos da democracia estão distorcidos há muito tempo.

 

Antes de se falar em bloco central ou em maioria de esquerda, seria mais conveniente estabelecer-se o que deve ser a plataforma do bloco de convergência estratégica, aquele que mude as preferências do eleitorado e as posições dos partidos para que possam ser respeitadas as condições actuais da modernização e do desenvolvimento - porque é para isso que serve o poder, para conduzir a sociedade no processo da mudança.  

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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