Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 23 de janeiro de 2017 às 20:46

Poderá o proteccionismo de Trump converter mais gente ao liberalismo?

Ao escolher o proteccionismo antiliberal como estratégia económica, Trump pode bem ter criado condições para algo inesperado: o reconhecimento, à esquerda e à direita, de que a liberdade de circulação de pessoas, bens, serviços e capitais é um bem demasiado precioso para ir borda fora.

Já deu para perceber que qualquer mensagem de Trump será por ele contaminada, independentemente do seu conteúdo. Ele é aquele mensageiro que elimina a mensagem, que lhe retira espaço, substituindo-a. Para uns, o errado torna-se certo, porque vem de Trump. Para outros, que gostamos de julgar a maioria, é o inverso. E não há ninguém propriamente interessado em não amplificar tudo aquilo que por ele vai ser dito.

 

Trump terá de viver com isso, algo que até ambicionou, e é o que lhe permite, por exemplo, expor as contradições dos seus adversários, que afinal fazem algumas das coisas que ele diz querer fazer, vitimizando-se; mas também algo que se presta a incidentes, uma vez que a mensagem é sempre contagiada, seja ela qual for, algo que em política pode custar muito. 

 

Nesse sentido há todo um espaço político que quer dissociar-se de Trump, que fará o possível para não ser confundido com ele. Isto sucede com a esquerda, que faz dele a encarnação da direita cavernosa, a que já nem disfarça, aquela em que vamos cair se nos distrairmos com as direitas que por cá temos. E isto sucede também com boa parte da direita, que anda há décadas a querer certificados de bom comportamento passados pela esquerda e vê em Trump a melhor forma de os obter: nós não somos aquilo.

 

Sucede que muito do que Trump diz do ponto de vista económico não difere grande coisa do que alguma esquerda e alguma direita andam a defender Europa fora: um governo patriótico e soberanista, fronteiras fechadas a produtos e empresas estrangeiras, protecção às indústrias e empresas nacionais, investimento em obras públicas como estímulo à economia, desconfiança face à concorrência externa.

 

Onde é que já ouvimos isso? Por todo o lado, é uma questão de estarmos atentos: de comunistas a democratas-cristãos, de sociais-democratas a trotskistas, de conservadores a socialistas, há quem defenda coisas semelhantes. É certo que com eufemismos e maior elegância, mas em Portugal não faltam exemplos. Vai ser bonito ver esses proteccionistas lidar com Trump…

 

A Presidência de Trump será por isso uma boa oportunidade para obrigar a direita das fronteiras fechadas e a esquerda desconfiada da livre concorrência a actualizarem o seu discurso, para com ele se não confundirem. Este é aliás um dos poucos pontos positivos de Trump: pode ser que, por antítese, ele converta gente ao liberalismo, à livre concorrência, à liberdade de circulação.

 

Claro que há muito mais em Trump do que a sua política económica, embora o muito que há a mais seja tributário de uma visão coerente com essa política económica: alergia ao novo, ao que nos desafia, ao que compete com a nossa visão do mundo, ao estrangeiro, aos que são melhores ou diferentes do que nós - uma alergia para onde caminham sempre, mas sempre, aqueles que querem uma sociedade fechada.

 

Mas este ponto positivo, a existir, sabe a pouco. Preferia que aqueles que, à esquerda e à direita, gostam de defender políticas iliberais se mantivessem como tal a ter de ver a maior nação livre do mundo abdicar daquilo que a fez tão grande, uma terra de oportunidades, para se entregar a um caminho tantas vezes testado e tantas vezes fracassado.

 

Não o digo por amor aos Estados Unidos. Quem pensar que temos algo a ganhar, que o mundo tem algo a ganhar, com o proteccionismo, não tardará a sentir-se enganado. Pagaremos caro, como sempre se pagou com os proteccionismos.

 

Advogado

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mais votado Pricemt Há 2 dias

Aguardamos ansiosamente pelo impeachment deste perigoso palhaço

comentários mais recentes
come nada Há 2 dias

O Trump tem previstas medidas de esquerda e por isso a esquerda fica atrapalhada porque afinal é como ele. Populista e mentirosa.

Pricemt Há 2 dias

Aguardamos ansiosamente pelo impeachment deste perigoso palhaço

5640533 Há 2 dias

Elege-se um velhote e depois estranha-se que tem alergia a tudo novo.