Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 29 de novembro de 2017 às 21:30

Porque Centeno não deve ir para Bruxelas 

Houve uma altura em que achei boa ideia Mário Centeno presidir ao Eurogrupo. Porque não há melhor guarda para uma prisão do que um antigo "condenado".

Ou seja, quem melhor do que um "ex-condenado" para impor as leis (regras) da prisão? Afinal é ele que melhor sabe como se viola as leis. Mais: um "condenado", confrontado com a responsabilidade do cargo, tenderá a ser mais papista do que o Papa.

 

A minha opinião mudou entretanto. Mais propriamente quando me apercebi do descontrolo total do Governo no descongelamento das carreiras dos professores. Ali o Governo mostrou como não tem mão sobre os grupos de interesses que mandam no Orçamento do Estado, coisa que já tínhamos intuído pelo pacto de não agressão entre o ministro da Educação e a FENPROF. Por outras palavras, as cedências já feitas aos sindicatos foram muito além do aceitável do ponto de vista orçamental e comprometeram o controlo do défice em caso de abrandamento da economia e/ou de um aumento dos juros na Zona Euro.

 

Ora isto significa que o nosso futuro coletivo ficou mais complicado. A dúvida reside, apenas, em saber quando é que isso vai acontecer. É por isso que já não defendo a saída de Mário Centeno para o Eurogrupo. O ministro está com a "babugem" pelo lugar. O Governo também. Mas há uma forte razão para amarrar Centeno à pasta das Finanças: como vamos pagar com língua de palmo as cedências que o ministro e o primeiro-ministro fizeram aos sindicatos e a outras corporações, é imperioso deixá-lo cá. Porque quando começarem as dificuldades, terá de ser o mesmo Centeno a assumir a austeridade para corrigir os disparates entretanto feitos. Nessa altura, saberemos se a popularidade do ministro se mantém em alta tendo em conta as medidas que terá de tomar: corte de despesa, aumento de impostos, combate aos lóbis...

 

Ser ministro das Finanças quando a economia está a subir, e logo a seguir à limpeza resultante de um duro programa de ajustamento, é coisa fácil. Centeno teve essa sorte. Tal como Cavaco e Cadilhe a tiveram depois do pesadíssimo ajustamento de 1983-1985 (que tornou Mário Soares no maior inimigo do povo). O problema acontece quando a economia entra na reta descendente, quando não há receitas extraordinárias e quando os investidores externos ameaçam deixar de financiar o país. Nessa altura, não há popularidade que resista.

 

Mas há outra razão para manter Centeno em Portugal: a de romper com o passado. Na nossa História recente, quem fez as borradas financeiras (orçamentais) nunca ficou para as limpar. Morais Leitão, ministro de Balsemão, não corrigiu os erros que acabaram na 2.ª vinda do FMI (1983); Sousa Franco, ministro de António Guterres, perdeu o controlo da despesa e provocou a recessão que Durão Barroso e Ferreira Leite herdaram; Bagão Félix, ministro de Santana Lopes, deixou derrapar a despesa e não corrigiu o défice estrutural; Teixeira dos Santos, ministro de Sócrates, conduziu o país até à 3.ª pré-bancarrota e não ficou para a assumir. Este estraga-e-foge, típico dos ministros das Finanças da 3.ª República (com raríssimas exceções), não é justo. É por isso que quero ver Centeno a assumir os custos dos erros que está a cometer.

 

P.S. - Conheci Belmiro de Azevedo em 1987, ainda estagiário, e muito tenho a dizer sobre ele. Mas como não caberia nesta coluna escolho aquele que considero o seu legado mais importante: recusava o concubinato com o Estado. Qualidade rara em Portugal...

 

Jornalista de Economia

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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