Porquê vender a RTP?
26 Abril 2012,
23:30 por Manuel Castelo Branco
Se a RTP fosse privatizada a oferta de publicidade no mercado aumentaria 20%. Todas as empresas de media, e não só as televisões, serão obrigadas a baixaros seus preços o que, a crer nas contas da maior parte delas, as conduzirá a uma situação trágica.
"The Economist " é uma publicação semanal tão bem pensada, dirigida e redigida que até os anúncios se lêem com gosto!Na edição de 14 de Abril, foi anunciada pela BBC a intenção de contratar um novo Director-Geral. Ao ler o anúncio pus-me a pensar no nosso serviço público de televisão (vulgo RTP) e no futuro que lhe está a ser preparado.O anúncio, publicado pelo BBC Trust que, já por si só é uma entidade independente das tentações governamentais e partidárias, começa por avisar os putativos candidatos de que o "Director-Geral terá de assegurar que a BBC manterá sempre a confiança do povo inglês que paga para ela e se distinguirá do resto da concorrência através dos melhores conteúdos, de uma distribuição efectiva e de uma organização eficiente".E depois avisa que se procura um "leader inspiracional, de visão clara e forte" que possa rever o estatuto da BBC de forma que ela esteja preparada para o Mundo, " tal como ele será em 10 ou 20 anos".O Governo prepara-se para privatizar a RTP ainda este ano. O modelo ainda não estará definido, mas tudo indica que comportará a venda da RTP1.Com essa venda o Governo encaixará mais uns cobres (não se sabe quanto, mas com o mercado como está, não deverá ser muito) e livra-se de um encargo anual aliviando o Orçamento do Estado (se bem que apenas parcialmente pois, por imperativo constitucional e democrático, terá de continuar a sustentar os encargos resultantes do serviço público).Os Governos de Portugal, ou melhor os partidos de Portugal, mandaram na RTP desde que ela foi criada nos longínquos tempos do Estado Novo: Salazar e Marcelo Caetano até 25 de Abril de 1974; alguma extrema-esquerda desde então até ao 11 de Março de 1975; o Partido Comunista de 12 de Março a 25 de Novembro de 1975 e, desde então, alternadamente o PS e o PSD com algumas concessões ao CDS, sempre que necessitam do seu apoio.Em Portugal, existiram "Secretários de Estado para a Comunicação Social" que, como a própria denominação insinua, perdiam pouco tempo com a regulação e muito com a intervenção. Calculo que uma parte substancial do seu tempo fosse gasta na RTP.Depois a pasta ou "tutela" dos "media" passou a ser exercida por aquele ministro em quem o primeiro-ministro tinha mais confiança pessoal e política. Atendendo à natureza das funções é fácil imaginar porquê!Entretanto o Estado, através do Governo em funções, concessionou dois canais: um a Francisco Balsemão (decano da imprensa e com provas dadas de independência e sucesso empresarial) e à Igreja Católica (que já tinha uma rádio).Só que os Governos não previram que a SIC e a TVI se impusessem à RTP tão depressa!Como os Governos não convivem bem com a total independência do quarto poder, trataram de desvirtuar as regras da concorrência, não só subsidiando a RTP muito para além do que resultava das suas obrigações de serviço público, como autorizando que também angariasse mais receita no mercado publicitário.Foi-se gerando uma RTP que não estava obrigada a cumprir um orçamento de despesa e que, não só concorria no mercado, como contratava as estrelas dos seus concorrentes. Parece que o actual Governo quer alterar a situação o que será uma boa notícia, ou não, consoante a solução adoptada.O serviço público de televisão continuará a ser assegurado. Isso pode conseguir-se através da concessão a um ou dois canais privados ou através da manutenção de um canal público.A existência de um canal público (de uma BBC portuguesa) não deveria ser desconsiderada apenas com o fundamento de que constitui uma grande despesa pública. Há custos da democracia que os cidadãos estão dispostos a suportar, desde que haja transparência, rigor e independência na sua aplicação.A venda do estabelecimento RTP a uma entidade privada, com a sua licença, o seu goodwill e a sua capacidade de produção e angariação de publicidade, pode criar uma enorme instabilidade na actividade das frágeis empresas de media Portuguesas.Entre 2008 e 2011, o mercado publicitário caiu 26% em Portugal e, nos dois primeiros meses deste ano, mais 20%.Se a RTP fosse privatizada a oferta de publicidade no mercado aumentaria 20%. Todas as empresas de media, e não só as televisões, serão obrigadas a baixar os seus preços o que, a crer nas contas da maior parte delas, as conduzirá a uma situação trágica pois a redução dos seus custos operacionais já não comporta qualquer elasticidade.Os custos que ainda for possível reduzir recairão sobre as vítimas do costume (trabalhadores, investimentos, pequenos fornecedores) e afectarão a qualidade, eu atrever-me-ia mesmo a escrever, a independência da informação prestada.Se assim é, porque é que se privatiza a RTP e não se considera a sua profunda reestruturação, a redefinição dos seus meios e objectivos e a criação de regras e institutos jurídicos que obriguem os futuros governos a respeitar uma televisão pública séria, rigorosa e independente e sem publicidade?
Advogado
mcb@mcb.com.pt
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