Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 26 de junho de 2017 às 20:50

Portugal amordaçado!

Hoje foram as florestas, por cuja protecção prontamente responsabilizamos o Estado. E, se amanhã for a saúde, a educação, as pensões de reforma, ou a segurança nos transportes a sucumbir?

A FRASE...

 

"Horas antes de ser conhecido o relatório da Protecção Civil sobre a atuação do SIRESP em Pedrógão Grande, a ministra da Administração Interna diz que só se demite se António Costa pedir a sua saída."

 

Pedro Rainho, Jornal Observador, 25 de Junho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Esta é mais uma, de entre muitas outras situações reveladoras de que no nosso país nos preocupamos demasiado com os meios e pouco com os fins. Ocorre assim no sector privado e no sector público. Sempre que surge um problema, a primeira reação é procurar culpados na cadeia de execução, como se a responsabilidade suprema não fosse de quem tem, na descrição das funções do posto de comando que ocupa, a obrigação de coordenar equipas, detectar falhas e adoptar as medidas correctivas necessárias: ou seja, gerir.

 

A atribuição de poderes para a gestão da coisa pública ou privada, a dirigentes nomeados ou eleitos - a distinção pouco importa para o caso - traz atrelada a responsabilidade pela sua execução. Não são, pois, aceitáveis como desculpas as decisões erradas dos subordinados, a deficiente execução de ordens ou, mesmo, a falta de meios para a sua realização.

 

Em caso de incumprimento grave, uma de duas coisas está mal: ou quem coordena e gere não tem competências para o cargo e, como tal, deve ser liminarmente afastado das funções, abrindo espaço a quem demonstre melhores capacidades de gestão; ou as metas são incompatíveis com a escassez de meios e, em nome da verdade, nunca deviam ser prometidas.

 

No episódio desconcertante dos incêndios, as notícias veiculadas pela comunicação social sugerem uma mistura explosiva das duas causas: no topo da lista de responsabilidades lá aparecem a descoordenação e a falta de meios. E, de imediato, riposta-se com mais investimentos, sem discutir o essencial: se estes resultados não são o reflexo natural dos exíguos recursos de que dispomos.

 

Hoje foram as florestas, por cuja protecção prontamente responsabilizamos o Estado. E, se amanhã for a saúde, a educação, as pensões de reforma, ou a segurança nos transportes a sucumbir? É pena que a agenda política não se interesse primeiro por esclarecer os limites do possível, propondo prioridades e, antes, se ocupe da maneira - i.e., dos meios e da organização do Estado - para a realização de promessas que, quando não vãs, apenas são alcançáveis em tempos de bonança.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub