Guilherme de Almeida e Brito
Guilherme de Almeida e Brito 07 de agosto de 2017 às 20:32

Portugal, um sucesso na internacionalização do ensino?

Está em curso, de forma discreta e silenciosa, uma forte competição a nível mundial pela atração e retenção do conhecimento e do talento universitário.

Este processo está a decorrer a um ritmo acelerado e terá um enorme impacto na capacidade de desenvolvimento de países e regiões. Portugal tem condições para ficar relativamente bem posicionado nesta competição.

 

Com o processo de Bolonha, a Europa procurou criar um espaço comum europeu no ensino universitário, de forma a permitir o desenvolvimento de universidades europeias capazes de alcançar uma reputação e notoriedade mais próximas das grandes universidades americanas como Harvard, MIT, Chicago ou Stanford. Antes de Bolonha, cada país europeu tinha o seu sistema de ensino específico, virado primordialmente, salvo raras exceções, para o mercado local, gerando instituições com baixa notoriedade internacional. Cada sistema tinha as suas especificidades, tornando relativamente complexa a mobilidade entre países e o reconhecimento dos respetivos graus.

 

Bolonha criou regras uniformes no espaço europeu, permitindo assim aumentar a mobilidade dos alunos entre instituições. Em particular, passou a ser muito fácil completar a licenciatura num país e frequentar, depois, o mestrado numa outra instituição, noutro país. Note-se que não estou a referir-me a processos de "exchange", como o programa Erasmus, mas da escolha da melhor escola onde frequentar o mestrado.

 

Esta mobilidade tem vários impactos positivos, um dos quais é oferecer uma maior visibilidade internacional às escolas de topo, que passam a ser capazes de atrair não apenas os melhores alunos do seu país, mas de toda a Europa. Com os ganhos de notoriedade e reputação associados, progressivamente passam a atrair os melhores alunos de todo o mundo. O mesmo se passa em termos de professores: as universidades tornam-se internacionais e procuram recrutar os melhores professores, independentemente da sua nacionalidade. Há, de facto, uma forte competição para atrair o melhor talento, em termos de docentes e discentes, para que a universidade se torne um polo de conhecimento reconhecido mundialmente.

 

As alterações de Bolonha estão a ter um grande impacto, o que seria esperado; surpreendente é a velocidade das transformações. Em vez de ocorrer um processo de lenta evolução, está em marcha uma restruturação acelerada. Um exemplo, particularmente ilustrativo, é o elevadíssimo número de estudantes alemães que já optam por realizar o seu mestrado fora da Alemanha. Há muitas universidades europeias que passaram a ter, cada uma, em poucos anos, centenas de estudantes alemães inscritos nos seus mestrados.

 

Na área da gestão, em particular, com a ajuda da grande visibilidade dos "rankings" do Financial Times, estes efeitos têm sido especialmente rápidos e com resultados para Portugal muito acima do expectável. Neste momento, Portugal tem duas faculdades entre as 25 melhores europeias, a Católica e a Nova, quando a Alemanha só tem também duas escolas, Itália tem apenas uma e toda a Escandinávia não tem nenhuma. É um resultado notável para a dimensão e o padrão de desenvolvimento do nosso país. Fica para um próximo artigo a análise das vantagens, limitações e desafios das instituições portuguesas no processo de internacionalização do ensino universitário europeu, um processo muito competitivo que pode ter uma influência particularmente favorável no desenvolvimento do nosso país.

Acting Dean da Católica Lisbon School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado JCG Há 1 semana

Lá vem mais um com a treta do talento, a palavra da moda que ilustra o discurso dos papagaios.
Há só um pequeno pormenor que gostava de deixar: eu como português e contribuinte altamente líquido, quero e espero que o sistema de ensino público português incluindo o superior seja focado e planeado para em primeiríssimo lugar oferecer ensino e formação, a melhor possível e sempre olhando para o topo e não para as médias, aos portugueses.
Acho execrável que em escolas públicas portuguesas, pagas também com os meus impostos, se ministrem cursos em língua inglesa. Infelizmente temos um ministro da cultura completamente incapaz e estéril.
É claro que se investidores privados quiserem abrir universidades em Portugal para venderem cursos a estrangeiros, isso é lá com eles, desde que cumpram os deveres e paguem os impostos como qualquer empresa e não, ao invés, ponham os contribuintes portugueses a financiar parte dos custos (e dos lucros).

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JCG Há 1 semana

Lá vem mais um com a treta do talento, a palavra da moda que ilustra o discurso dos papagaios.
Há só um pequeno pormenor que gostava de deixar: eu como português e contribuinte altamente líquido, quero e espero que o sistema de ensino público português incluindo o superior seja focado e planeado para em primeiríssimo lugar oferecer ensino e formação, a melhor possível e sempre olhando para o topo e não para as médias, aos portugueses.
Acho execrável que em escolas públicas portuguesas, pagas também com os meus impostos, se ministrem cursos em língua inglesa. Infelizmente temos um ministro da cultura completamente incapaz e estéril.
É claro que se investidores privados quiserem abrir universidades em Portugal para venderem cursos a estrangeiros, isso é lá com eles, desde que cumpram os deveres e paguem os impostos como qualquer empresa e não, ao invés, ponham os contribuintes portugueses a financiar parte dos custos (e dos lucros).