Guilherme de Almeida e Brito
Guilherme de Almeida e Brito 24 de setembro de 2017 às 19:25

Portugal, um sucesso na internacionalização do ensino II? 

Portugal tem condições naturais ímpares de atratividade internacional, que incluem o clima, a natureza, a afabilidade das pessoas, a gastronomia, o ambiente das cidades.

Em artigo anterior, referi que está em curso, de forma discreta e pouco noticiada, uma forte competição a nível mundial pela atração e retenção do conhecimento e do talento universitário, associada a um significativo aumento da mobilidade internacional de alunos, professores e recursos. Este processo terá um enorme impacto estratégico na capacidade de desenvolvimento de países e regiões.

 

Na área da gestão, área que me é mais familiar, estes efeitos têm sido especialmente rápidos com a ajuda da grande visibilidade internacional dos "rankings" do Financial Times. Neste momento, Portugal tem duas faculdades entre as 25 melhores europeias, a Católica e a Nova, quando, por exemplo, a Alemanha tem duas, tal como nós, a Itália tem apenas uma, e a Escandinávia não tem nenhuma. É um resultado notável para a dimensão e o padrão de desenvolvimento do nosso país.

 

Gostaria de partilhar o que me parecem ser alguns fatores de sucesso neste processo de internacionalização, fatores que podem ter vários aspetos em comum com o esforço de internacionalização de tantas empresas portuguesas, um esforço entusiasmante, mas cheio de desafios.

 

Uma primeira dimensão é um focus muito claro no serviço à sociedade e na criação de valor, como principal fator de melhoria, inovação e desenvolvimento de cada instituição. Estando muito centradas no "mercado" - empresas, alumni, recrutadores, alunos e candidatos - as escolas podem criar os mecanismos de evolução que permitem criar valor para todos os parceiros envolvidos e dar resposta às necessidades de uma sociedade em constante mudança. Focus claro nos "stakeholders" externos e não centrado nas prioridades internas da função de produção.

 

Uma segunda dimensão é de ambição: não termos receio de nos compararmos com as melhores escolas do mundo e de aceitarmos, com naturalidade, o desafio de aprender, cooperar e competir com elas. A comparação sistemática com as melhores práticas mundiais na nossa área, e pretender para nós não menos do que essas práticas, constitui um aguilhão que ajuda a pôr a instituição em constante movimento no sentido da excelência.

 

Uma terceira dimensão é uma grande humildade, associada à elevada ambição. Nesta competição internacional, as instituições portuguesas têm uma história ainda muito recente e meios limitados quando comparadas com as principais escolas internacionais. Essa consciência permite-nos ser realistas e ter pressa em compensar a menor experiência internacional com uma maior flexibilidade e capacidade de adaptação.

 

Uma quarta dimensão é uma busca crescente de excelência e consistência, com avaliação sistemática das atividades do dia a dia: nos critérios de recrutamento e progressão de docentes, na qualidade da experiência em sala de aula, na prioridade à investigação e criação de conhecimento, na admissão e colocação dos alunos, na relação com empresas, recrutadores e alumni. A criação de valor está muito dependente da atenção ao detalhe na fase de implementação e não apenas da fase conceptual de formulação estratégica.

 

Portugal tem condições naturais ímpares de atratividade internacional, que incluem o clima, a natureza, a afabilidade das pessoas, a gastronomia, o ambiente das cidades. Aliando estratégias ambiciosas e consistentes com uma implementação prática exigente e cuidadosa, há condições para reforçar um círculo virtuoso em que cada pequeno sucesso fortalece a reputação, a visibilidade, a exigência e, consequentemente, os resultados futuros da instituição. Se conseguirmos associar, de forma coerente e num prazo não demasiado longo, padrões de excelência internacional à qualidade ímpar das nossas condições naturais, o ensino superior pode representar, à semelhança das empresas exportadoras, um importante motor de desenvolvimento estrutural do nosso país.

 

Acting Dean da Católica Lisbon School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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JCG Há 3 semanas

Bom, vamos lá a ver: anda por aí uma enorme caldeirada, que me preocupa, pois tenho o (mau) hábito de antecipar para onde as coisas vão a partir da forma como se mexem.
Não tenho nada contra a que no país se criem e instalem universidades privadas/ empresas que tenham como estratégia vender serviços a (captar alunos) estrangeiros, desde que não pretendam comer do orçamento português e paguem os seus impostos como qualquer empresa e negócio.
Quanto às escolas do ensino superior público, pagas com os impostos dos portugueses, não devem perder de vista o que deve ser o seu foco: garantir a melhor instrução e formação aos portugueses. É para isso que contribuo com os impostos que pago. Obviamente, a substituição do português pelo inglês em escolas públicas portugueses é uma situação absurda e intolerável que o governo e os portugueses não devem permitir.