Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 26 de maio de 2014 às 19:10

Portugal vai crescer?

O fim do período formal de resgate e o contexto de um longo processo eleitoral, que começou agora com as eleições europeias, suscita as mais descabeladas promessas, quase todas com um traço comum: a pretensão do crescimento.

 

Observadas de perto, as promessas de crescimento significam, sobretudo, pedidos de licença para gastar mais dinheiro público. Nas longas listas de medidas prometidas não se consegue vislumbrar rasto de vontade de enfrentar os reais factores do processo de divergência em curso.

 

A explicação do actual impasse do crescimento português enfrenta três dificuldades de monta, todas obscurecendo os factores especificamente portugueses. A primeira é que o actual processo divergência começou em período muito próximo da introdução do euro, levando muitos a atribuir a este acontecimento a responsabilidade pelo fraco crescimento. A segunda dificuldade tem que ver com as complicações analíticas trazidas pela crise financeira mundial iniciada em 2008. A terceira deriva das confusões provocadas pela intromissão da Troika e da política de austeridade dos últimos 3 anos.

 

No longo prazo, que é o que conta para o caso, os factos estilizados relevantes são estes. Primeiro, o país sempre teve um PIB per capita muito inferior à média europeia; o melhor que se conseguiu foi um valor próximo, mas inferior a 80% da média europeia nos séculos XVI, XVII e XVIII. Depois, entramos em divergência vertiginosa em direcção a valores que em geral andaram entre os 30% e os 40%; crescimento e convergências significativas só se registaram em dois períodos da segunda metade do século XX: anos 60 e os anos que se seguiram à adesão à CEE em meados dos anos 80.

 

O factor que permitiu ao país beneficiar de breves períodos de convergência foi o aparecimento de choques externos que forçaram a abertura da economia e propiciaram períodos de crescimento acelerado e de convergência. Foi assim nas décadas de 60 e 85/95 do século passado com, respectivamente, a abertura à EFTA e à CEE. É como se o país entregue a si próprio, não impulsionado por um choque externo, não consiga criar factores de crescimento e convergência. É a abertura de mercados externos às suas empresas e o do mercado interno à concorrência das empresas estrangeiras o factor que nos consegue fazer crescer.

 

A actual situação deve-se ao esgotamento do impulso externo da abertura da entrada na CEE. O mercado único nos serviços que deveria seguir-se naturalmente ao mercado único dos bens foi travado. Em seu lugar tivemos a fuga em frente em que constituiu o euro.

 

A economia portuguesa precisava no início da década de 90 de um novo impulso de abertura e em seu lugar teve uma moeda única com uma gestão laxista (entre outros: diminuição da qualidade dos colaterais aceites pelo BCE) que não sendo acompanhada de criação de mais integração de mercados trouxe investimentos de carteira em detrimento do investimento directo necessário.

 

Em vez do constrangimento e estímulo dos mercados tivemos a gestão política da moeda e das finanças públicas, com avanços e recuos e, sobretudo, sem incentivos às reformas e à melhoria das instituições.

 

Para o crescimento o que vemos propor é a aceleração da degradação dos padrões de gestão do BCE.

 

A insistência no laxismo monetário e orçamental está condenada ao fracasso como política de crescimento.

 

Devemos olhar antes para o que tem funcionado bem para a economia portuguesa como factor de crescimento. Esse factor é o choque externo.

 

Em que poderá consistir agora um novo choque externo?

 

É certo que um choque externo não se provoca facilmente. Mas há uma ideia que deveria ser considerada e assumida como prioridade nacional na sua política europeia: a necessidade de criar em Portugal zonas francas industriais - começando, por exemplo, por Sines - onde se oferecessem condições excepcionalmente favoráveis para a instalação de investimentos industriais. 

 

Economista e professor do ISEG

 

A sua opinião7
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado A Hemorróida Voyeur 26.05.2014

Só se for com viagra.

comentários mais recentes
Hugo-Rego 01.06.2014

Sr. Professor, se há necessidade de se criarem zonas francas para o sector industrial, não é menos verdade que tal, per si, de pouco valerá sem um conjunto mais alargado de medidas e factores.

Pacto de política fiscal alargado e estável, acordo político de médio-longo prazo para a diminuição dos leques salariais (convergência salarial com congelamento dos referenciais mais elevados ou oneração dos mesmos, via taxação), plano de reestruturação da rede de transporte comercial transnacional (tendo em conta os imensos estudos e orientações já sinalizados), plano de desenvolvimento e fixação de populações no interior (subsídios não, por favor), plano de reestruturação do Ensino Secundário e Superior (com regulação dos contingentes de formação neste último), plano de incentivo à fixação/manutenção nacional de projectos de investimento científico-empresariais, plano de incentivo à gestão profissionalizada no sector empresarial, política de incentivo à criação de cadeias de valor acrescentado em empresas do sector primário, definição clara de longo prazo de perfis de investimento para cada região, alteração do modelo governativo (criação de instituições decisórias, o mais autónomas possíveis, transversais) acabando com o modelo vertical e encapsulado que temos hoje (implicava "destruir" a actual lógica político-partidária), plano de formação cívica em sede de formação escolar.

Poderia juntar-lhe mais umas quantas ideias. Infelizmente, nenhuma delas teria qualquer hipótese de sucesso. Sines é hoje o que é, não por falta de potencial ou de noção do mesmo. Apenas porque nós temos os lideres políticos que podemos e uma sociedade que os fez emergir. Nada acontece por acaso...

Queiroz 28.05.2014

«Zonas francas industriais»... Mas, afinal não estamos na UE sendo sujeitos a normativo legal que é comum?! Como poderiam haver zonas "francas" num país membro, ignorando as normas legais que são comuns a todos ?

Anónimo 27.05.2014

Não !

ze 27.05.2014

Não pára de crescer ... infelizmente é para baixo.

ver mais comentários