Nicolau do Vale Pais
Portugal, uma questão soberana. (o Sr. Ministro não mente - e então?)
11 Maio 2012, 12:24 por Nicolau do Vale Pais
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Deixemo-nos de tretas sobranceiras auto-motivacionais e proto-nacionalistas: Portugal não é a Grécia, mas para lá caminha.
Deixemo-nos de tretas sobranceiras auto-motivacionais e proto-nacionalistas: Portugal não é a Grécia, mas para lá caminha. A inclinação da sinuosa via parece ser cada vez mais acentuada e inexpugnável, com factores externos a tomarem uma preponderância impensável há três ou quatro anos trás. A austeridade falhou, não serve propósito algum, nem mesmo numa perspectiva neoliberal absoluta, de qualificar a "governação" de um Estado pelo resultado do abaixamento dos juros nos mercados internacionais. É este o exemplo da Grécia; só não vê quem não quer. Transferir o problema da "independência financeira" para o lado absoluto dos cidadãos é uma desrespeito à nossa capacidade enquanto sociedade livre de pleno direito de aprender com a História - e a nossa soberania, do Tratado de Tordesilhas à adesão à (então) C.E.E, tem dependido directamente da qualidade dos nossos agentes políticos, como é recomendável em Economias periféricas e de pequena dimensão. Nós somos quem nos governou.

O Sr. ministro das Finanças não mente - como esta semana disse no Parlamento - e isso é muito bom para ele. Para nós, não tem qualquer relevância em termos de estratégia futura, pois eu também não minto e isso não faz de mim um bom ministro. Tal e qual como, em "boa verdade", Manuela Ferreira Leite foi uma péssima candidata em 2009, o que foi uma pena desastrosa, sobre a qual o PSD deveria reflectir, em vez de palacianamente procurar o próximo "qualquer-coisa", que logo se verá se vem com botões-de-punho ou de mangas arregaçadas, dependendo da "conjuntura". O mal deste Governo - que pode não mentir, mas tem um plano de crescimento económico que é uma aldrabice pegada - é achar que ser melhor que o pantomineiro que o antecedeu lhe basta para adquirir o respeito do eleitorado; é um problema de autismo eufórico e desconhecimento das qualidades intrínsecas do País, pois resume toda a nação a esse mínimo denominador comum que foi José Sócrates. E é um perigo também: para "nos habituarmos a números de desemprego nunca antes vividos" ou para suportarmos o "temos de empobrecer", precisamos da motivação de uma estratégia que honre a reinvenção única dos nossos mais de 900 anos de independência que são, em si, muito mais eloquentes do que qualquer "mercado". Ou, se preferirmos uma linguagem mais pragmática, cada Governo deve encarregar-se das esperanças que o eleitorado nele depositou, porque essa é que é a verdade legítima que partilhamos. Portugal é um dos melhores países do mundo para viver, e o direito afectivo a achar isso mesmo não pode ser violentado por figura alguma, muito menos por um político criado fora do real mercado de trabalho, fora das reais dificuldades do país, dentro de uma Jota, embalado para o poder. Confundir a prosperidade e segurança que Portugal conquistou por mérito próprio, na senda dos seus brilhantes antepassados - de D. Dinis a Humberto Delgado - com "despesismo público" é uma afronta à imensa maioria de gente séria que todos os dias sai da cama para contribuir com o melhor de si, sem pedir nada em troca; estimular publicamente estes equívocos para reforço do poder próprio - quando todos sabemos que um BPN pagaria décadas de subsídios de Natal - é ser indecente, inculto e incauto ao ponto de se achar que Democracia é "acesso ao consumo" ou "falta dele". As generalizações não prestam para nada em gestão, falta auditar o problema - a dívida - para se lhe encontrar uma solução e um diagnóstico. Até lá, estaremos sempre estagnados e a pedir mais dinheiro aos contribuintes para nada; leia-se "impostos" e perceba-se a matemática - só com crescimento económico poderemos "honrar os compromissos".

A transferência global do "poder" da "sede" dos responsáveis públicos, para a "sede" dos mercados financeiros, é o centro do vórtice. Chamar todo um país a pagar os erros e perversões colossais da classe política e seus patrocinadores - e a impunidade dos mesmos - é um acto irresponsável. Estamos a falar de uma dívida não-auditada, criada através da contaminação secretiva e promíscua das políticas públicas, modeladas que foram ao interesse estrito de agentes privados (*). Cada cultura tem os seus limites e nós não somos excepção; a tolerância para lá desses limites dependerá da crença - ou não - nos mecanismos de regeneração, dos quais a política deveria ser mediadora privilegiada. Voltar ao mar como valor económico, ou à qualificação do território, das pessoas, das cidades, das empresas e da Administração Pública, por exemplo, são evidências programáticas que já ultrapassaram há muito a ideologia que as motiva; hoje, é essencial que se desminta que Portugal tenha vivido "acima das suas possibilidades" - quem o fez foi a classe política e as suas afilhadas "empresariais", precisamente enquanto nos impediam de viver as nossas reais possibilidades de decência e brio.

Para baixo desta sinceridade, estamos a ser frívolos. E como está em causa a paz, o emprego e a subsistência de milhares de pessoas, bárbaros também. O resto é mentira.



(*) Foi entendendo este propósito civilizado que se perdoou à Alemanha Nazi a violência imperialista da II Guerra Mundial.

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