Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 07 de fevereiro de 2018 às 10:00

Português ou inglês?

Os preços dos livros estão a matar o português. Hoje é mais barato comprar em Portugal um livro escrito em inglês do que esse mesmo título traduzido para a nossa língua.

Ontem, ao procurar na Fnac o último romance do escritor negro norte-americano Colson Whitehead, vencedor do Prémio Pulitzer de 2017, "A Estrada Subterrânea", dei-me conta de que se comprasse a edição em inglês da editora britânica Fleet pagaria 10,25 euros mas se optasse pela tradução portuguesa lançada pela Penguin Random House desembolsaria 19,90 euros, isto é, praticamente o dobro!

 

Naturalmente, escolhi o livro que além de ser o original era mais barato.

 

Curiosamente, no dia anterior chegara ao meu conhecimento o fecho, por insolvência, da cadeia de livrarias Bulhosa, que vinha a lutar pela sobrevivência desde o início da década.

 

Num tempo de internet, em que comprar livros está ao alcance de um simples clique, a política de preços e margens dos editores nacionais parece simplesmente suicida.

 

Se num primeiro momento a concentração do mercado funcionou como balão de oxigénio para as maiores editoras portuguesas agora o crescimento destas empresas depende exclusivamente da capacidade de atrair mais leitores. Em vez disso, a estratégia seguida é a de extrair o máximo de um mínimo de compradores de livros.

 

É uma estratégia condenada ao fracasso. Primeiro porque as alternativas mais baratas abundam noutros idiomas, depois porque o inglês é hoje uma língua com um alcance significativo entre os leitores portugueses.

 

Sou um leitor compulsivo e grande comprador de livros, nado e criado em Portugal sinto-me mais confortável com o português, mas estou prestes a abandonar a compra de livros na nossa língua devido à escandalosa diferença de preços.

 

Esta política de preços, a par com o facto de na maior parte das disciplinas científicas os clássicos e as novidades não se encontrarem em português, e que já obriga muitos a ter de recorrer ao inglês, pode, a prazo, prejudicar ainda mais o português que tenderá a transformar-se numa língua inútil.

 

O português de Portugal pode encontrar-se sem serventia na ciência, em que o inglês é já obrigatório, sem uso na leitura profissional, em que a falta de tradução já impele para o livro em inglês, sem utilidade na literatura, porque os preços são proibitivos, remetido apenas para a simples oralidade.

 

O Brasil salvará o português? Infelizmente, não. Uma política errada de falta de cooperação separou já o português do Brasil do português de Portugal de forma irreversível. Em termos escritos, o português do Brasil é hoje uma língua estranha e estrangeira. Com os seus duzentos milhões de falantes, o português do Brasil sobreviverá, sem que com isso salve o nosso português.

 

As autoridades deviam refletir nos incentivos que dão aos portugueses ao nível do domínio e uso da sua língua. Para que não passemos a falar uma língua, de facto, morta.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Alentejano 02.03.2018

Felizmente consigo ler em 4 línguas para alem do Português e tenho de concordar com o autor (arfff..) e com outros comentadores sobre as qualidades da tradução estou a ler o nome da rosa em Inglês depois de o ter lido em italiano, inglês e na tradução portuguesa falta-lhe liricidade parece plástico

JCG 07.02.2018

Julgo que tal fenómeno expressa bem a natureza assaloiada (sem ofensa aos saloios) das elitezinhas portugas e seus papagaios/ macacos, que, por défice cognitivo, ainda não perceberam que o mais valioso ativo da património cultural português - que tem valor económico - é a língua portuguesa.

JCG 07.02.2018

Pelo que venho observando, a língua portuguesa, em Portugal, sofre uma ofensiva como nunca antes ocorreu em matéria de substituição progressiva e acelerada de palavras do português por palavras em inglês. E isto acontece não só na esfera privada, mas também na pública.

Escritor Apenas Escritor 07.02.2018

Classificar um autor pela sua raça é totalmente despropositado em qualquer país. Trata-se de uma questão civilizacional. Ou o autor traduziu o artigo e para lhe dar o cunho Português resolveu recorrer ao "negro" para a expressão Americana "Afro-American"? Como se podem publicar estes textos?

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