Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 29 de agosto de 2017 às 19:38

Portugueses, 0 - Funcionários públicos, 1

Pedia-se um árbitro justo, mas espreitando a biografias dos nossos governantes, constata-se que dos 18 ministros (incluindo o Primeiro), 12 são funcionários públicos, e aos restantes 6 pouca experiência empresarial se lhes conhece.

Gosto da franqueza de António Costa. Não tem cá papas na língua, nem consegue esconder a verdade durante muito tempo. Ponham-no no palanque, acendam os holofotes e ele conta tudo, sem que seja preciso recorrer à tortura para o fazer falar. Foi o que aconteceu no discurso da "rentrée" em que, lançado a explicar-nos como tinha acabado com a crispação na sociedade portuguesa, o primeiro-ministro fez saber que já não há conflitos entre (sic) "os portugueses e os funcionários públicos".  

 

A guerra a que Costa se refere é bem real, e até inevitável: só por loucura a equipa da função pública prescindirá das suas conquistas, da mesma forma que os trabalhadores do sector privado não deixarão de protestar por se verem obrigados a pagar as benesses do clube contrário. Ou seja, a única coisa que se podia pedir era um árbitro justo. A questão, no entanto, começa aí. Espreitando a biografia dos nossos governantes na página do Governo na internet, constata-se que, dos 18 ministros (incluindo o primeiro), 12 são funcionários públicos, e dos restantes seis pouca experiência empresarial se lhes conhece!!

 

A coisa nem faria muito mal se a função do Governo se limitasse a regulamentar a orgânica dos ministérios e serviços, o que seguramente este Executivo fará melhor do que ninguém, conhecendo de ginjeira as normas indecifráveis que tutelam a administração pública. O pior é que são exatamente os mesmos que decidem e legislam sobre a vida das empresas e dos "portugueses" na aceção que lhes foi agora dada por António Costa.

 

Convenhamos que é muito difícil para alguém a quem o emprego e o salário ao fim do mês foram sempre realidades imutáveis e sagradas perceber a ansiedade dos "portugueses", cuja vida depende em cada momento de um enorme conjunto de fatores que não controlam.

 

A simples falência de um cliente da empresa onde trabalham, a recusa de uma operação de crédito, o súbito aparecimento de um concorrente vindo da conchinchina, são situações que podem deitar abaixo toda uma expectativa de estabilidade. E é por isso que eles se preocupam com a saúde das organizações onde trabalham, com a qualidade das pessoas que as dirigem e com tudo o que possa beliscar o negócio.

 

Um governo insensível a esta realidade, porque a não conhece, entretém-se a impor normas e obrigações que exasperam quem as tem de cumprir e que minam a competitividade.

 

Decidir que se pagam os subsídios de férias e Natal em duodécimos e depois já não, impor preenchimento de modelos, mapas, reportes, alterar impostos, taxas e descontos, mudar faltas, feriados e licenças e mais mil e uma trapalhadas várias que os ilustres mandantes despejam alegremente e com a maior leviandade na cabeça cá da malta, ignorando por completo como a coisa afeta a vida dos "portugueses".

 

E isto para já não falar dos poucos idiotas que um dia se lembram de fazer qualquer coisa, metendo o seu dinheirinho em qualquer negócio. O caso é logo configurado como um atentado pela miríade de "serviços públicos" (o nome só pode ser mesmo para gozar com o lorpa do cidadão) que acometem sobre o estúpido empreendedor todo o tipo de licenças, autorizações, inspeções, declarações, atestados e outra balística própria do léxico do funcionalismo.

 

O agravamento do fenómeno fica agora explicado ao escrutinar a origem profissional dos ministros.

 

Temos um Governo de funcionários públicos que derrota um país de "portugueses". Parabéns aos vencedores.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Anónimo Há 3 semanas

É fundamental que as sociedades, por causa das pessoas de todas as idades e por uma questão da mais elementar humanidade, tenham um sistema público de segurança social implementado e sempre em vigor. Esse sistema público de segurança social não pode é chamar-se direcção regional, administração regional, delegação regional, centro hospitalar, repartição de finanças, junta de freguesia, câmara municipal, escola secundária, faculdade, serviços municipalizados de transportes urbanos, sociedade de transportes colectivos, Águas de Portugal, CP, Carris, BdP, Novo Banco ou Caixa Geral de Depósitos. E isto é o que as esquerdas portuguesas, incluindo muitos centristas cata-vento e pseudo-direitolas, não compreendem.

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fcj Há 3 semanas

A Isabelinha não precisa de pertencer à função pública! Pudera, com esse rosto tão cândido (e já agora, bonito), facilmente consegue realizar-se no privado...

fcj Há 3 semanas

A função pública na sua componente humana, constitui a espinha dorsal e consistente da sociedade portuguesa! É ela que paga os desvaneios e roubalheiras do sector privado, ex. bancos, banqueiros, empresas falidas, etc... É ver a composição e proveniência de 95% dos presos nas cadeias portuguesas!!!

Anónimo Há 3 semanas

É fundamental que as sociedades, por causa das pessoas de todas as idades e por uma questão da mais elementar humanidade, tenham um sistema público de segurança social implementado e sempre em vigor. Esse sistema público de segurança social não pode é chamar-se direcção regional, administração regional, delegação regional, centro hospitalar, repartição de finanças, junta de freguesia, câmara municipal, escola secundária, faculdade, serviços municipalizados de transportes urbanos, sociedade de transportes colectivos, Águas de Portugal, CP, Carris, BdP, Novo Banco ou Caixa Geral de Depósitos. E isto é o que as esquerdas portuguesas, incluindo muitos centristas cata-vento e pseudo-direitolas, não compreendem.

Anónimo Há 3 semanas

Segundo a wikipedia a Isabel é escritora e jornalista, descendente do Marquês de Sade e do Barão das não sei quantas... ora aí está um legitimo representante do vulnerável povo português, que nunca beneficiou do "sistema", passa fome e vive diariamente oprimido pelo vilão Estado... belo guião!!

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