Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 12 de fevereiro de 2017 às 18:00

Precisamos mesmo de um "banco mau"?

É estranho que a intenção oficial de criar um "veículo sistémico" para limpar a banca em Portugal esteja a gerar tão pouco debate.

O Governo, ao lado do Banco de Portugal, há meses que ouve propostas de privados para fazer a dita limpeza e tem abordado o assunto com as autoridades europeias - o ministro das Finanças anunciou até, há dias, o anúncio em breve de uma proposta final. É importante, então, lançar uma pergunta simples: para quê um "banco mau"?

 

Os defensores da ideia usam sobretudo dois argumentos. O primeiro, nas palavras do primeiro-ministro, é "libertar o sistema financeiro de um mono", ou seja, das imparidades ainda por reconhecer e que vão continuar a consumir capital. O segundo é dar oxigénio aos bancos para que estes possam retribuir o favor às empresas, puxando pela economia. Estes argumentos, até aqui esgrimidos sempre de uma forma genérica, suscitam muitas dúvidas.


As imparidades são um problema, mas já não para todos os bancos. BPI, Santander e a Caixa Geral de Depósitos (que juntos valem mais de 45% do mercado) não precisam de limpezas extraordinárias. Os dois primeiros têm poucos problemas e o terceiro será limpo pelo plano de António Domingues, que inclui uma recapitalização de luxo. Se o Novo Banco for vendido à Lone Star, como parece estar na calha, o fundo norte-americano poderá lidar com o assunto no qual é especialista. Das grandes instituições sobra o BCP, que já percorreu boa parte do caminho do reconhecimento de imparidades - e que tem accionistas novos, o que me leva ao ponto seguinte.

Ao contrário do que se passou em Espanha ou na Irlanda, que recorreram à figura do "banco mau" no contexto de crises bancárias profundíssimas que limitaram a recapitalização em condições de mercado, em Portugal os bancos relevantes que precisem de mais capital têm um caminho disponível: pedir aos accionistas que lá metam mais dinheiro. Foi o que a Caixa acabou de fazer com os contribuintes. E é o que os restantes bancos, como o BCP ou o Novo Banco, podem fazer: continuar a reconhecer imparidades, recuperar crédito, recapitalizar se necessário, fazer o caminho das pedras. Isto porque dificilmente a alternativa, o tal veículo sistémico, deixará de significar um qualquer envolvimento do Estado. Para quê arriscar dinheiro público num universo restrito de bancos antes de esgotar a via privada?


O leitor poderá responder: para os bancos emprestarem mais e ajudarem a economia a crescer. O BCE, para dar um exemplo, estima um aumento potencial do crédito entre 2,5% e 6%. Mas isto é o que se pode libertar do lado da oferta de crédito - e do outro lado? A quem vão emprestar os bancos? Há bons negócios e empresas viáveis perdidos por falta de crédito? Quantos? O Governador do Banco de Portugal, citando números desastrosos sobre a autonomia financeira das empresas portuguesas, já referiu mais do que uma vez que um banco não empresta se a percepção do risco for grande e que, dado o panorama nacional, essa percepção só pode ser grande.

Estas dúvidas traduzem cepticismo sobre o banco mau - um grande negócio para quem o gerir - mas não são um ponto de chegada. Mesmo no grupo de trabalho liderado pelo Governo nem toda a gente tem o mesmo entusiasmo pela ideia (de difícil execução à luz das regras europeias). Importante é que o Governo não trabalhe no meio do silêncio cá fora sobre um tema tão relevante - e que quem defende ou quem duvida de uma solução desta natureza venha a público esgrimir de forma mais consistente os seus argumentos.
A sua opinião8
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
JCG 13.02.2017

Os balanços dos bancos (o ativo líquido) deve refletir a situação patrimonial do banco com o máximo rigor possível. Se de um crédito de 100 só se espera recuperar 40, então o valor deste crédito que está no ativo líquido do banco deve ser de 40.
Bom, o banco pode queret vender este crédito problemático e há quem compre. Qual o problema? É o de que, por maior rigor que esteja na avaliação desse crédito, se ele vale 40 no balanço quem o comprar só oferece e só dá por ele 10 ou 20. Então o banco vai ter que assumir mais uma perda que será a diferença entre os 40 e o montante que receber por esse crédito.
Quem compra tais créditos são fundos abutres (um dos quais acolheu a Maria Albuquerque na folha de pagamentos) que querem ganhar dinheiro (muito) com os despojos.
É claro que manter tais créditos tem custos de gestão. Mas quando os bancos até estão a dispensar pessoal ás carradas, podiam ocupar algum desse pessoal a gerir e a (tentar) recuperar tais créditos.

JCG 13.02.2017

"é "libertar o sistema financeiro de um mono", ou seja, das imparidades ainda por reconhecer e que vão continuar a consumir capital."
Ó Lopes, você sabe o que é que está a dizer? O que é isso de imparidades ainda por reconhecer? De accordo com as normas internacionais de contabilidade a partir do momento em que há sinais, factos, acontecimentos, ocorrências, sei lá, qualquer indicação, de que há possibilidade de o banco não conseguir recuperar integralmente um crédito que concedeu deve imediatamente reconhecer, calcular e registar a imparidade (potencial) e constituir a respetiva provisão para a cobrir.
Se há créditos concedidos pelos bancos sobre os quais há indicações ou sinais de que não vão ser recuperados e tais imparidades não foram reconhecidas, então estamos perante um caso de polícia, envolvendo uma quadrilha de vigaristas constituida por contabilistas, ROC, gestores dos bancos, auditores, BdP e CMVM.
Quando é que assuntos como este começam a ser analisados com conhecimento?

Ventura Santos 13.02.2017

É isso mesmo. Parabéns, mais um bom artigo.

nin 13.02.2017

Por exemplo, já algué fez as contas à destruição de valor causada só pela CGD? Obreira da queda da PT, financiadora de calamidades como a tomada do BCP, Cimpor, Vale de Lobo. Quanto dinheiro queimaram o BCP, BANIF, BES, BPN? 30 mil milhões? Mais? Merecem ajudas?

ver mais comentários