Manuela Arcanjo
Manuela Arcanjo 05 de Dezembro de 2016 às 20:35

Preocupação, irritação e um elogio

Ao contrário do que é habitual não me dedico hoje a uma análise temática. São apenas algumas notas sobre assuntos diversos, a nível externo e interno, que suscitam efeitos que deram origem ao título.

No contexto internacional têm-se sucedido acontecimentos cujos potenciais efeitos negativos sobre a Zona Euro e sobre cada um dos seus Estados-membros são suficientes para que os líderes e as instituições europeias decidam, por uma vez, como pretendem salvar os princípios que enformaram a construção europeia. Refiro-me ao Brexit, à vitória de Donald Trump e, no domingo, à esmagadora derrota do referendo constitucional em Itália. Neste último caso, o efeito mais imediato pode ser sobre a já dramática situação do seu sistema bancário e óbvias repercussões sobre os restantes periféricos, em especial Portugal. Mas como é que a União, termo ainda em uso, vai conseguir gerir todos estes impactos após a desastrosa condução quer das demolidoras políticas de austeridade quer da imigração e da reacção inaceitável de alguns países? Quem são, afinal, os actuais líderes europeus com estratégia e força para evitar o colapso da União? Todos os europeus, pró ou contra a integração monetária, só podem sentir uma imensa preocupação, seja pelo projecto europeu, seja por razões puramente nacionais.

 

A nível nacional, dois tópicos suscitam uma enorme irritação. Em primeiro lugar, o optimismo sem moderação do primeiro-ministro (PM) - apesar de influenciar positivamente as expectativas de muitos portugueses - e do próprio Presidente da República (PR). Após uma figura mumificada e sem empatia, o novo PR trouxe simpatia, afectos e um imenso apoio ao actual Governo. Se este apoio político é essencial num Governo com apoio parlamentar, a intervenção do PR torna-se excessiva quando reage a qualquer mero indicador ou previsão económica como se Portugal estivesse no melhor dos mundos. Não está: continua com os mesmos problemas estruturais e com uma imensa vulnerabilidade ao enquadramento internacional. Claro que ambos devem ter uma mensagem positiva, em especial depois do período dramático da troika, mas não era difícil acrescentar algo como "é bom, mas não chega".

 

Um segundo tema que justifica uma menção é o processo da CGD. A nomeação de António Domingues dava garantias de termos um banqueiro e não comissários políticos cuja intervenção no banco público se suspeita, mas ainda se ignora. Dois erros: o Governo ter aceitado todas as condições impostas pelo gestor e este não se ter demitido quando o assunto dominou a comunicação social. Mas o PM actuou rapidamente e escolheu Paulo Macedo, isto é, já não um banqueiro que domine as exigências actuais do sistema bancário europeu, mas alguém que tem sensibilidade política. A escolha causou-me uma profunda irritação: Paulo Macedo liderou o sensível sector da saúde no período da troika com as desastrosas consequências em termos de acesso e qualidade dos cuidados. Só motivos que a razão desconhece podem justificar que o PM de um Governo socialista - que, em princípio, continua a defender o SNS - tome esta opção.

 

O meu elogio vai para o PCP, nas pessoas de Jerónimo de Sousa e restantes deputados. Não serão negociadores fáceis, mas todos reconhecem a sua lealdade no apoio a um projecto governativo que tem, naturalmente, profundas divergências programáticas. Ao contrário de deputados de outros partidos, não usam nem a arrogância nem as graçolas e muito menos usam a comunicação social como o seu espaço político privilegiado.

 

Professora universitária (ISEG) e investigadora. Economista. 

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mais votado Anónimo Há 1 semana


FANÁTICOS EXTREMISTAS

Os xuxa.s são tão fanáticos como certas religiões que todos conhecemos.

Por isso acreditam em tudo o que os seus chefes dizem, e ameaçam / insultam todos os que denunciam as suas muitas mentiras e crimes!

comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Já estava habituado à sua assertividade e hoje, mais uma vez, não fugiu à regra.
Parabéns, Dra Manuela Arcanjo!
Muitos falam e escrevem, mas não acertam, pois, perdem-se na substância e relevam o assessório...
Continuação de uma boa noite...

Anónimo Há 1 semana


Os pafiosos são tão fanáticos como certas religiões que todos conhecemos.

Por isso acreditam em tudo o que os seus chefes dizem, e ameaçam / insultam todos os que denunciam as suas muitas mentiras e crimes!

Anónimo Há 1 semana


OS FP / CGA SÃO TODOS LADRÕES

O défice orçamental do OE 2017, é de 3016 milhões de Euros...

e o buraco anual das pensões dos FP / CGA em 2017, é de 4600 milhões de Euros.

CONCLUSÃO: SÓ EXISTE DÉFICE EM 2017, DEVIDO AO BURACO DA CGA!


Anónimo Há 1 semana


FANÁTICOS EXTREMISTAS

Os xuxa.s são tão fanáticos como certas religiões que todos conhecemos.

Por isso acreditam em tudo o que os seus chefes dizem, e ameaçam / insultam todos os que denunciam as suas muitas mentiras e crimes!