Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 22 de janeiro de 2018 às 11:54

"Price targets" e o zodíaco

A forma como os "price targets" vão sendo calculados fazem com que cada vez seja mais crítico em relação a eles.
Sou avesso a "price targets". Teoricamente, a definição de um valor justo para uma acção num determinado horizonte temporal seria interessante e útil como ferramenta de auxílio aos investidores nas suas tomadas de decisão. Mas, na prática, a forma como vão sendo calculados e divulgados fazem com que cada vez seja mais crítico em relação a eles.

Sendo eu um analista técnico, poderão alguns achar que é óbvio que iria criticar uma premissa essencial da análise fundamental. Errado. Acredito que a análise fundamental, quando bem executada, é uma excelente ferramenta de auxílio dos investidores, sobretudo no que ao longo prazo diz respeito. E tentar definir qual o valor de uma empresa de forma que os investidores vendam aquilo que está sobreavaliado e comprem o que está subavaliado faz todo o sentido, em termos de longo prazo.

O problema é que na prática, em mercados com tendências bem definidas, a maior parte dos "price targets" corre atrás dos preços, quando deveriam ser os preços que deviam correr atrás dessas referências. É frequente assistirmos a revisões de "price targets" quando o preço da acção se aproxima dessa previsão e, com medo de serem ultrapassadas pelo mercado, as casas de investimento revêm em alta esse mesmo "price target". Diria que é humano não querer ficar sozinho, longe da opinião de milhões, mas não é isso que se espera de um analista.

Se fossem analistas técnicos a alterar, num curto espaço de tempo, a sua análise era compreensível, pois a análise técnica reage em função das flutuações do preço da acção. Mas ver analistas fundamentais a rever constantemente os seus "price targets" sem que os fundamentais (da empresa, do sector, da economia) se tenham alterado faz-me muita confusão. Muitas das vezes, ao ler essas revisões de análises, sinto que mexeram em algumas variáveis apenas para justificar essa revisão. Porquê? Porque o mercado andou muito mais depressa do que seria suposto e temem ficar desfasados da realidade.

Tomemos, como exemplo, as últimas análises sobre o BCP. Em Novembro, duas casas de investimento divulgaram os seus relatórios com "price targets" (a 12 meses) de 0,32 e 0,33 euros. Agora, dois meses depois, divulgaram novos "price targets" de 0,37 e 0,40 euros, respectivamente. O que mudou, em termos fundamentais, nos últimos dois meses para esta revisão em alta de 15 a 20% do preço-alvo do BCP? Nada. Simplesmente, o BCP voou em direcção aos anteriores "price targets" e as casas de investimento não quiseram ser ultrapassadas pelo preço e fizeram uma reavaliação.

É por este género de coisas que não dou crédito a "price targets". Escrevi, há 10 anos, que olhava para eles como para um horóscopo: não acreditava neles, mas lia-os sempre. Desde aí, deixei de ler o horóscopo e confesso que apenas leio as análises com "price targets" por obrigações profissionais. A minha crença neles é tão grande como no zodíaco. 
Comente aqui o artigo de Ulisses Pereira


Nem Ulisses Pereira, nem os seus clientes, nem a DIF Brokers detêm posição sobre os activos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui


Analista Dif Brokers
ulisses.pereira@difbroker.com

Saber mais e Alertas
pub