João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 16 de Novembro de 2016 às 20:20

Probabilidades e psicologia

A surpresa que constituiu a eleição de Donald Trump para Presidente americano a 8 de novembro é demasiado tentadora para não escrever sobre o assunto. O tema da psicologia das previsões interessa-me bastante e já escrevi sobre o mesmo nesta coluna.

O ponto de partida é a elevada probabilidade que a generalidade dos analistas atribuía à vitória de Hillary Clinton. Por exemplo, o site (fivethirtyeight.com) de Nate Silver, um estatístico, atualizava ao dia a probabilidade de vitória de cada um dos candidatos. Na véspera da eleição, dia 7, era de 72% para Hillary e 28% para Trump. A vantagem de Hillary era muito significativa, mas a vitória não era certa. Porém, muitos, incluindo eu próprio, estavam convencidos de que a vitória era segura. Ou seja, para efeitos de análise, discurso e cenarização, tratava-se de um resultado de probabilidade elevada como se fosse uma certeza inequívoca. Hillary já tinha ganho. E, portanto, a vitória de Trump foi uma grande surpresa.

 

O ser humano tem mesmo dificuldades em compreender probabilidades. Nomeadamente para acontecimentos humanos futuros de natureza histórica ou política. Relembre-se que no dia 7 muitos eleitores não tinham ido votar, outros não sabiam se iriam ou não votar, e alguns ainda não teriam decidido exatamente em quem iriam votar. Por melhor que fosse a qualidade dos dados, das sondagens e das análises sociológicas e políticas certamente que sobrava alguma incerteza residual. Como justificar a confiança na vitória de Hillary?

 

Pensemos na nossa deliciosa vitória na final do Europeu de futebol 2016 contra França. Será que a nossa probabilidade de vitória nesse jogo era maior do que a de Trump nas presidenciais americanas? Creio que não. E, no entanto, antes do jogo acreditámos que era possível. Mesmo sabendo que não éramos favoritos e que a probabilidade de vitória era baixa. Será legítimo dizer que se o jogo fosse repetido, ganharíamos outra vez? Creio que o mais sensato era tornar a atribuir a Portugal uma probabilidade de vitória pequena. E, no entanto, o momento Éder aconteceu. Foi histórico. Nunca mais o esqueceremos e gostámos. Pelo menos em Portugal.

 

Parece fácil acreditar no azar e na sorte quando falamos de futebol. Mas quando se trata de resultados eleitorais o determinismo histórico está implícito na maioria das análises. Antes e depois das eleições. Primeiro com a certeza da vitória de Hillary e depois com as análises sociológico-políticas, igualmente seguras e inequívocas, à vitória de Trump. Não há espaço para o acaso. E, no entanto, se regressasse a 7 de novembro (ou a 15 de agosto) a mim continua a parecer-me razoável prever que Hillary iria ganhar com uma probabilidade de 2 para 1. Ou seja, é como jogar aos dados e dar a vitória a Trump se sair "um" ou "dois", entregando a presidência a Hillary nos restantes casos.

 

Aliás as últimas sete eleições presidenciais foram bastante renhidas (talvez com a exceção da segunda vitória de Bill Clinton em 1996 e da primeira de Obama em 2008) e os candidatos dos dois maiores partidos americanos chegaram ao dia das eleições com probabilidades razoáveis de vitória (certamente maiores do que as de Portugal contra França). Nesse sentido a divisão eleitoral que se observa na América entre democratas e republicanos mantém-se essencialmente constante no último quarto de século. E sugerir que isso mudou com esta eleição exige um enorme salto analítico.

 

Por exemplo, o site referido no início desta crónica apenas falhou claramente na previsão do resultado em 3 dos 51 círculos eleitorais (56 se quisermos ser muito precisos): Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Todos ganhos por Trump. E nestes não foi preciso uma mudança de voto de muitos eleitores para produzir o resultado observado. A tese de que o discurso da proteção da indústria doméstica de Trump influenciou, nestes estados, alguns dos eleitores marginais, mas determinantes, parece plausível.

 

Em suma, creio que Trump teve muita sorte. Que não voltaria a ter necessariamente numa hipotética repetição das eleições.

 

Já se o mundo teve azar com este resultado é algo para analisar mais tarde, quando se perceber um pouco melhor que tipo de Presidente será. Infelizmente, não podemos usar as palavras ditas por Trump no passado para prever com confiança o que fará no futuro.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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