Bjørn Lomborg
Produto Interno Verde?
09 Agosto 2012, 23:30 por Bjørn Lomborg | © Project Syndicate, 2008 www.project-syndicate.org
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Um país com um PIB elevado tem, normalmente, taxas de mortalidade infantil mais baixas, uma esperança de vida maior, melhor educação, mais democracia, menos corrupção, níveis de vida mais satisfatórios e, muitas vezes, o médio ambiente mais limpo
Um dos temas mais debatidos na fracassada Cimeira Rio 20, em Junho, foi a necessidade de alterar a forma como medimos a riqueza. Muitas pessoas defendem que devemos abandonar a "obsessão" pelo Produto Interno Bruto (PIB) e desenvolver uma medida mais "verde". Fazê-lo, porém, seria um erro muito grave.

Na verdade, o PIB é apenas uma medida do valor de mercado de todos os bens e serviços. À partida parece ser um bom indicador de riqueza, mas incluiu coisas que não nos tornam mais ricos e deixa outras de fora.

Por exemplo, se as pessoas não forem compensadas pelos danos provocados pela poluição, os seus efeitos adversos não serão incluídos no PIB. Se pagarmos para reduzir a poluição o PIB aumenta, mas não houve criação de riqueza. Da mesma forma, existe um valor económico quando as águas residuais são limpas, naturalmente, mas como não ocorreu nenhuma transacção, não é reflectido no PIB.

Vale a pena ter em consideração estas limitações do PIB como medida da riqueza. E pode fazer sentido melhorar este indicador, incluindo benefícios não contabilizados, e excluindo custos de externalidades e actividades que não geram riqueza. Infelizmente, muitos dos substitutos "verdes" propostos, apesar de bem-intencionados, não resolvem estas limitações de forma adequada e podem mesmo produzir resultados piores.

Um exemplo conhecido antes da Cimeira do Rio 20 e usado para defender um PIB "mais verde", centrava-se na zona pantanosa de Nakivubo na capital do Uganda, Kampala, onde as águas residuais saem da cidade em direcção ao lago Vitória. Um estudo revelou, que sem os serviços de purificação da zona pantanosa, Kampala necessitaria de uma estação de tratamento de águas residuais que custaria, pelo menos, 2 milhões de dólares por ano.

Segundo o economista Pavan Sukhdev, antigo director da Iniciativa Economia Verde das Nações Unidas, a questão era simples: "Vai custar 2 milhões de dólares por ano fazer o que a zona pantanosa está a fazer de graça e eles não têm esse dinheiro". Assim, depois de ter em conta os benefícios não contabilizados resultantes do tratamento de águas residuais, que podiam ascender a 1,75 milhões de dólares por ano, e o custo para construir a estação de tratamento, Kampala decidiu proteger aquela área. "Prevaleceu a lógica económica", diz Sukhdev.

A Zona Pantanosa de Nakivubo é um excelente exemplo da necessidade de realizar uma avaliação cuidadosa do meio-ambiente. Essa informação é crucial para tomar boas decisões. Por exemplo, se a zona pantanosa fosse destruída para criar um novo distrito, os benefícios teriam que ser, pelo menos, 1,75 milhões de dólares mais elevados do que os custos.

Mas também existe o enorme risco de uma utilização política indevida de tal informação. As autoridades de Kampala decidiram proteger a área. Ou seja, negaram-se a analisar, sequer, outras possibilidades para aquela zona.

Os activistas ambientais procuram, muitas vezes, resultados semelhantes, mas são totalmente injustificados. A zona pantanosa está perto do centro da cidade e do centro industrial e em Kampala há escassez de terrenos. É muito provável que os benefícios – em termos de postos de trabalho e de crescimento económicos – resultantes de um novo distrito (em vez de uma zona pantanosa) fossem muito mais elevados do que 1,75 milhões de dólares. Existem motivos para que poucas (se é que existe alguma) cidades grandes e ricas tenham zonas pantanosas não urbanizadas no seu centro.

Se se utilizam as medidas verdes para evitar o processo político, podemos, na verdade, acabar numa situação pior, porque os países ficarão privados de postos de trabalho, riqueza e assistência social, enquanto os benefícios ambientais, quando alcançados, são relativamente pequenos. A zona pantanosa de Nakivubo não é um exemplo em que prevaleceu a lógica económica. Mas sim exactamente o oposto, já que não foram analisadas todas as opções e escolhida a melhor.

Imaginem se os nossos antepassados tivessem feito a mesma coisa e decidido proteger, a tudo o custo, as zonas pantanosas. Grande parte da zona baixa de Manhattan continuaria a ser um pântano e não o motor da cidade de Nova Iorque, com grandes custos para a sociedade.

Em geral, a contabilidade verde pode acabar por ser mais enviesada do que as medidas tradicionais do PIB. O PIB verde inclui prejuízos não contabilizados, e evita assim o problema de sobrestimar a nossa riqueza, mas não contabiliza os benefícios, potencialmente, muito maiores da inovação.

Por exemplo, o Banco Mundial defende que para ser verde precisamos de ter em consideração que o consumo de combustíveis fósseis privará a gerações futuras de esses recursos. Na verdade, a queima de combustíveis fósseis ao longo dos últimos 150 anos deu-nos a liberdade de criar e inovar um mundo, incrivelmente, mais rico com antibióticos, telecomunicações e computadores. Tudo isto vai enriquecer o futuro, mas não é contabilizado.

Além disso, enquanto queimávamos combustíveis fósseis, encontrámos novos recursos e descobrimos novos métodos, como a fracturação horizontal, que aumentou, drasticamente, a disponibilidade de gás natural e permitiu reduzir os custos. Tudo isto deixa as sociedades futuras muito mais ricas –, mas não seria contabilizado no PIB verde.

Na prática, a contabilidade verde poderia, muito facilmente, ter evitado que os nossos antepassados derrubassem florestas, já que representaria a perda de um recurso valioso. Mas transformar as florestas em zonas agrícolas levou ao aparecimento de cidades e civilizações. A inovação que se seguiu permitiu criar muito mais riqueza.

A maioria dos decisores políticos continua focada no PIB porque, apesar de não ser perfeito, está fortemente correlacionado com resultados muito valorizados no mundo real. Um país com um PIB elevado tem, normalmente, taxas de mortalidade infantil mais baixas, uma esperança de vida maior, melhor educação, mais democracia, menos corrupção, níveis de vida mais satisfatórios e, muitas vezes, um médio ambiente mais limpo.

Apesar da contabilidade verde ter um papel a desempenhar, não podemos permitir que venha a ser um obstáculo ao desenvolvimento.

Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Luísa Marques


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