Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 26 de dezembro de 2017 às 21:10

Prospetiva e Investimento Externo

Recentemente foi saudado com grande entusiasmo um novo investimento estrangeiro no interior do país.

Portugal tinha conseguido atrair a instalação de uma fábrica de uma multinacional que fabrica tubos de escape reforçando o papel da indústria automóvel no nosso país. Dezenas de postos de trabalho diretos e algumas dezenas mais indiretamente.

 

Uma vitória, já que anteriormente a produção destes componente automóvel estava sediada num país desenvolvido da Europa Central.

 

Seguiram-se os habituais autoelogios sobre a excelência da formação da mão-de-obra nacional, sobre os incentivos fiscais oferecidos, a magnificência das estradas que permitem exportar rapidamente o produzido, das redes de comunicação que permitem que a fábrica seja controla à distância pela casa-mãe.

 

Ufanos da capacidade nacional de atrair mais uma peça de uma das indústrias mais sofisticadas e mais tecnologicamente avançadas, autoridade locais e nacionais dirigem-se mútuos panegíricos entre sorrisos abertos.

 

No meio desta satisfação generalizada alguém teve o atrevimento de erguer a voz e perguntar "Para quê uma fábrica de tubos de escapes quando a indústria automóvel está a mudar do paradigma dos hidrocarbonetos (gasóleo e gasolina) para o elétrico?".

 

Na verdade vários países já anunciaram que na próxima década apenas poderão circular nas suas estradas veículos elétricos. Trata-se, é certo, de países desenvolvidos, mas também nada menos dos países que absorvem grande parte da produção mundial de carros e dos países que podem impor no mercado internacional os padrões que todos seguem.

 

Nesse sentido, estamos a trazer para Portugal uma indústria condenada, uma indústria obsoleta e sem futuro no curto prazo, uma vez que os tubos de escape tradicionais não são necessários nos carros movidos a eletricidade.

 

Não admira que a empresa queira deslocalizar esta atividade moribunda e que a queira fazer prosperar nos anos que restam com o contributo dos baixos salários dos portugueses capazes de atenuar as perdas da diminuição da procura.

 

Mas será este o tipo de investimentos que devemos atrair? Claramente que não.

 

É importante que as autoridades nacionais façam um exercício sério e profissional de prospetiva industrial para perceber quais as tecnologias, quais as industrias, quais as atividades económicas que, num mundo em evolução, mas não caótico ou incompreensível, se apresentam como promissoras e quais as que estão condenadas a curto ou a médio prazo. E depois se concentrem nas primeiras e evitem as segundas.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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