Jorge Marrão
Jorge Marrão 24 de janeiro de 2017 às 20:40

Qual o jogo que jogamos?

O lima de descrispação que o Presidente da República refere como instalado na sociedade portuguesa é uma das marcas mais relevantes deste ano de mandato.

As figuras austeras e esfíngicas de Ramalho Eanes ou de Cavaco Silva sacralizavam o poder de Belém; as de Mário Soares ou Jorge Sampaio indiciavam uma maior proximidade afetiva com a generalidade da população. O que os portugueses hoje precisam têm-no na figura do seu PR. Lemos assim o povo através do seu Presidente.

 

O PR sabe jogar xadrez e é um estratego emocional. A superioridade intelectual de professor e as palestras televisivas permitiram combinar no PR os elementos racionalidade e emoção que fascinariam Damásio.

 

Este contexto de exercício de mandato será sempre nacionalista. Depois de uma intervenção externa, o cântico de libertação tem de ser entoado. A reação popular despontou pelo desgaste económico e emocional proporcionado pelas regras externas. A mudança de vida foi definitiva, mas ainda incompreendida.

 

O último Presidente terminou o seu mandato com uma pesada dívida do seu povo para com o exterior, e entre os portugueses; este dificilmente terminará com uma diferente, se não promover a mudança do regime.

 

A crispação do passado terá certamente inúmeras origens: não podemos ignorar que os interesses sindicais, corporativos e políticos estavam a ser lentamente arrasados com as políticas do memorando da troika.

 

A crispação política e de rua era o grito pela dor infligida; mas o seu contrário não pode ser uma anestesia. Ou é uma opção evidente de manter o funcionamento do regime nos moldes passados - um triângulo perfeito entre regime político, sistema bancário e economia empresarial dos grandes campeões nacionais, quase todos criados artificialmente por uma taxa de juro baixa e ilimitado volume de crédito, depois de duas bancarrotas do Estado sucessivas - ou estamos a jogar outro jogo.

 

O PR poderá estar a jogar para um xeque-mate silencioso ao regime numa articulação saudável entre maiorias políticas, sistema bancário e empresarial que nos permitam ser competitivos na globalização, sem criação anormal de dívida pública e privada.

 

Uma Europa assustada com o imperador Trump, que quer regressar à casa de partida, um Reino Unido dividido, e uma Europa sem condições de solidariedade pelos egoísmos nacionalistas, nos quais também participamos, não permite que a partida de xadrez seja jogada apenas entre os nacionais que são chamados a Belém. Quem nos vai trazer de novo crispação só pode ser o exterior. Enfrentar este, sem que aquela exista, seria o melhor e maior legado que este PR nos deixaria.

 

Sem um PR estratego e persuasivo, o regime não muda. A esperança desloca-se assim de São Bento para Belém. Um sebastianismo tardio a que nos agarrámos com afetos, sem ainda saber se o manobrador das peças quer que exista um xeque-mate e novos vencedores.

 

Gestor

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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surpreso Há 2 dias

D.Marcelo I ,o "descrispador"