Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 30 de janeiro de 2017 às 21:10

Quando a acusação se torna mais importante do que a sua veracidade

No último debate quinzenal, o primeiro-ministro recusou, de forma objectiva, revelar o valor da dívida pública e o valor do défice sem medidas adicionais.

Em consequência, Passos Coelho e Assunção Cristas acusaram-no de ocultar esses valores. O que é mais relevante? A recusa do primeiro-ministro ou as acusações da oposição?

 

Dir-se-á que ambas as circunstâncias sucederam, são factos. Sucede que a relevância de uma e outra não é a mesma. Quando se faz uma acusação, o relevante é saber se ela é verdadeira. Quando se noticia que a oposição acusou um primeiro-ministro de não revelar os valores da dívida e do défice, não é indiferente saber se ele se recusou mesmo a revelá-los, daí retirando consequências, ou se a acusação não passa de politiquice.

 

Os relatos noticiosos desse debate parecem ter preferido dar destaque, em título, às acusações da oposição, mais do que à circunstância que as motivava, daí que os títulos tenham sido mais "Cristas acusa o primeiro-ministro de ocultar o valor da dívida" do que "Costa não revela o valor da dívida".

 

Não estou a dizer que os relatos foram parciais ou que ignoraram o facto de o primeiro-ministro se ter recusado a responder. Nada disso se passou, aliás. Estou a dizer que os relatos escolheram o dramatismo da acusação, o duelo, e não tanto a afirmação em título de uma sindicância: afinal o primeiro-ministro ocultou ou não esses valores? Quem só leu os títulos ficou sem saber, achando talvez que tudo não passava de politiquice. 

 

Este género de escolha vem de trás, não tem que ver com este Governo, é estrutural. Este é apenas um exemplo. Sucede que este género de escolha tem consequências porque abre espaço para o tal tempo da pós-verdade e dos factos alternativos, que eu prefiro designar como tempo da falta de sindicância.

 

Há desde logo uma relativização da verdade. A recusa do líder do Governo, que é o facto, perde importância face à acusação da oposição. A verdade (ou falsidade) da acusação passa a ser matéria discutível, relativa, e não algo objectivo, verificável. Não se vai ao fundo da questão, fica-se pelo burburinho sem que se tirem consequências. O tal pós-verdade alimenta-se disto, desta relativização do facto, desta prevalência da citação, em que os títulos se espalham sem a informação relevante.

 

Depois, incentiva-se a técnica acusatória. Se é assim, o que interessa é fazer acusações, ainda que sem fundamento, desde que se encene um confronto pronto a ser consumido pelos media. Se o acerto da acusação deixa de ser o título em destaque, se cada acusação tem direito a citação em jeito de título, que têm os políticos a perder em acusar sem fundamento? Os tais factos alternativos surgem daqui, da amplificação de afirmações sem verificação, da ideia de que se alguém diz, basta citar. 

 

E por fim, o que é pior, os políticos vêem-se livres de um importante contrapoder de sindicância, que só os media, não a oposição, podem fazer. Se o primeiro-ministro quer ocultar valores, pode fazê-lo com audácia e jeito porque daí se não retirarão consequências, que o que interessa é o duelo político posterior, não a denúncia dessa recusa. O populismo cresce assim, deste convite à arena, onde tudo pode ser dito ou ocultado, sem consequências de maior, sem que as pessoas se apercebam de quem fala verdade, como se o que verdadeiramente interessasse não fosse a busca da verdade, antes o relato do confronto.

Se queremos evitar o pós-verdade, talvez fosse bom não relaxar a diária função de exigente sindicância, em vez de reservar o seu essencial para o dia em que sentirmos ter um populista entre nós. Nesse dia já será tarde. 

 

Advogado

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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 2 semanas

Estes geringonços são um EMBUSTE!

Desde o assalto ilegitimo ao poder (apos estrondosa derrota eleitoral) a ocultação de dados e paginas de relatorios...
Se fossem os direitas a fazer tal, os caes raivosos do PCP e BE ate se espumavam! Mas aos xuxas tudo é permitido! Até ter o partido FALIDO!

Rado Há 2 semanas

"De forma objectiva" tem de ir depois de "revelar".