Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 08 de janeiro de 2018 às 20:17

Quando alguns partidos se juntam para impedir um programa de televisão

Aos portugueses disseram nada, como quem acha que não tem de dar explicações, como quem não quer saber do que pensam deles, como quem não se preocupa com a figura a que se presta.

Na semana passada, escrevi que o episódio da aprovação das alterações ao financiamento dos partidos poderia vir a ter um sentido útil, consequente, se os partidos aproveitassem para iniciar um processo aberto de discussão sobre o modelo de financiamento partidário.

 

O veto do Presidente da República reforçou essa convicção, na medida em que se centra na falta de debate, de justificação, de fundamentação. Não questiona o Presidente o teor das alterações, pelo menos não o faz abertamente, mas, isso sim, o método pelo qual estas surgiram e a sua ausência de fundamento, que é como quem diz: se acham que isto faz sentido, assumam e expliquem-se.

 

Esperar-se-ia, por isso, que em face da indignação surgida, aproveitando o espaço dado pelo Presidente, os partidos se dispusessem para a serena discussão do tema: não podendo haver democracia sem partidos, de que forma, para quê e quando devem estes ser financiados?

 

É uma discussão importante, que tem de ir além do populismo do "eles só querem é poleiro", e que provaria, perante os portugueses, a humildade, a abertura e a transparência que os partidos necessitam para voltar a ganhar a confiança das pessoas: humildade para reconhecer o erro no método e eventualmente nas soluções, abertura para fazer um debate com pessoas fora da política e transparência para impedir a opacidade que muitos apontam aos partidos, a todos eles. No fundo, a discussão poderia ser um começo de reconciliação do sistema partidário com as pessoas.

 

Sucede que os partidos fizeram exatamente o oposto disso. E fazer o oposto não quer dizer ignorar o assunto, fazer de morto, fingir que não se passou nada. Não, fazer o oposto é mesmo fazer o oposto, é fechar ainda mais, amuar ainda mais, não reconhecer qualquer erro ou necessidade de transparência, é virar as costas.

 

E porque é que digo isto?

 

Porque alguns dos partidos que viabilizaram as polémicas alterações, alguns dos partidos que lestamente se manifestaram chocados com o populismo e sensacionalismo de quem não concordou com, ou noticiou, as alterações à lei, se recusaram a participar no debate que há décadas a fio a RTP organiza sobre os temas parlamentares da semana. Falo do programa "Parlamento", tradicionalmente apontado como exemplo de serviço público, o único programa que verdadeiramente passa em revista o trabalho parlamentar.

 

Pois bem, sendo o programa "Parlamento" sobre o financiamento dos partidos, tema evidente dado o seu impacto, o que fazem os partidos? Aproveitam a oportunidade para se explicarem? Aproveitam o tempo de antena para reporem aquilo que consideram ser a verdade? Aproveitam o programa para discutir sem sensacionalismo e populismo o que está em questão? Nada disso. Fugiram. Desertaram. Aos portugueses disseram nada, como quem acha que não tem de dar explicações, como quem não quer saber do que pensam deles, como quem não se preocupa com a figura a que se presta.

 

E o programa "Parlamento" não foi para o ar. Pela primeira vez em décadas, penso eu, o programa não foi para o ar porque alguns partidos que viabilizaram a polémica lei não quiseram falar de um tema que, sabemos agora porque antes diziam-nos que ninguém tinha percebido a bondade das suas propostas, os incomoda.

 

E o programa foi cancelado, os portugueses excluídos da discussão, com a arrogância dos miúdos que são donos da bola e se vão embora quando a equipa está a perder. Houve, portanto, um programa de serviço público que foi cancelado porque alguns partidos se conluiaram para o abortar, evitar, para não terem de dar a cara.

 

Se é assim que os partidos pensam superar a crise de confiança que personificam, estão muito enganados, como os panoramas políticos de vários países europeus claramente demonstram.

 

Assim não vamos lá.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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comentários mais recentes
Zézé Camarão 09.01.2018

A propósito de uma expressão no artigo, lembro-me quando era miúdo, à saída das aulas na primária estavam a organizar-se duas equipas, o dono da bola disse para o que melhor jogava “tu não, vai-te embora que jogas muito”, mas o outro é que deveria jogar sempre.

BES 09.01.2018

Já pediu satisfações a Portas e Cristas sobre o BES? É que afinal vamos ter de pagar os mais de 4 mil milhões!!!
Mas isso é uma bagatela comparada com um pedido de bilhete de futebol de Centeno.

Mr.Tuga 09.01.2018

Só percebeu isso agora?!?!? Tem andado a dormir!

Porque acha que a ABSTENÇÃO sobe todos os anos e se encontra nuns VERGONHOSOS quase 50%?

Este sitio de MIERD* atrasado e cada vez mais na cauda da Europa e OCDE não é para gente SÉRIA!
Este sitio de TRAMPA MERECE-SE!

fpublico condenado a 48 anos trabalho/descontos 09.01.2018

A DEMOCRACIA EM PORTUGAL "APLICADA" POR ALGUNS POLITICOS QUE NO DIA 25 ABRIL DE 1974 ANDAVAM A PASSEAR OU A BRINCAR, DISCRIMINA UMA PESSOA DE BEM E IDONEA
EU SOU VITIMA DA DEMOCRACIA PORTUGUESA

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