Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 09 de maio de 2017 às 20:30

Quando é que a dívida pública começa a diminuir?

Esta é uma pergunta para a qual todos gostaríamos de saber a resposta, mas é difícil! O primeiro trimestre de 2017 não foi positivo, uma vez que a dívida pública manteve a trajetória ascendente registada nos últimos meses de 2016.

Em março de 2017, a dívida pública portuguesa atingiu os 243,5 mil milhões de euros em termos brutos e os 226,5 mil milhões de euros em termos líquidos de depósitos.

 

As condicionantes para que a dívida pública possa descer são fundamentalmente as seguintes: o défice público terá de baixar para níveis entre os 0% e 1%, o que implica um maior crescimento económico (pelo menos 2,5% ao ano), a continuação da consolidação orçamental e a descida dos encargos financeiros pagos anualmente.

 

A dívida pública é uma das referências importantes para a capacidade creditícia de um país perante os olhos dos seus credores.

 

Numa altura em que se deseja tanto a passagem do país para um nível superior ao de lixo/"junk bond", o crescimento da dívida pública não contribui para essa situação. A dívida pública continua a aumentar porque o país mantém necessidades de fundo de maneio crescentes e que têm de ser financiadas. Daqui resulta que o montante anual emitido de dívida pública continua a ser superior ao valor dos reembolsos. Enquanto não suceder o contrário, o montante de dívida pública não irá descer. E este é um problema que em nada contribui para a imagem do país além-fronteiras, em especial junto dos nossos credores e das agências de "rating".

 

E para descer a dívida pública, não convém acabar com as atuais almofadas, como os depósitos e as reservas de ouro, pois tal será interpretado negativamente pelos credores.

 

Portugal só irá ver a sua dívida pública passar para o nível de "investment grade" (acima de lixo), quando os credores e as agências de "rating" verificarem que o crescimento económico do país é dinâmico e sustentado, de forma a poder-se baixar o défice público face ao PIB e o montante da dívida pública em valor absoluto e face ao PIB.

 

Relativamente à tão falada restruturação da dívida, ela tem sido feita nos últimos anos com a extensão das maturidades e com o reembolso de empréstimos com uma taxa de juro mais elevada (FMI). O estudo divulgado recentemente revisita algumas questões que já são feitas, mas tem a virtude de falar sobre um grande problema do país e que não pode continuar a ser tabu.

 

Numa altura em que começam a aparecer vozes na Europa a defender a diminuição do programa de compra de títulos de dívida pública por parte do Banco Central Europeu, que a inflação europeia aumenta e que o crescimento económico europeu, a manter-se dinâmico, poderá ditar uma mudança na política monetária mais cedo do que o previsto, seria de todo desejável que a dívida pública portuguesa melhorasse a sua notação de risco.

 

A melhoria da notação de risco significaria imediatamente uma descida do diferencial entre a "yield" das Obrigações do Tesouro nacionais e as congéneres alemãs e, consequentemente, uma redução dos encargos financeiros que anualmente o país paga.

 

Caso esta situação não ocorra antes do ciclo de subida dos juros na Europa, vai ser muito complicado para Portugal conseguir baixar o nível de dívida pública. E aí a hipótese de um "haircut" ganhará novamente força.

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião21
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Anónimo 10.05.2017


Não são os médicos e enfermeiros que ganham pouco...

Os professores universitários, juízes e magistrados é que ganham demais.

TOCA A CORTAR OS SALÁRIOS E PRIVILÉGIOS DESTA MALTA TODA... PARA SE PODER BAIXAR A DÍVIDA PÚBLICA.

comentários mais recentes
Anónimo 10.05.2017

A divida liquida está a diminuir em % do PIB. O problema é que a almofada financeira aumentou e a divida bruta também. Excesso de zelo ?
https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/documentos-relacionados/dividapublica_201703.pdf

Ex-aluno 10.05.2017

Caro Professor, parabéns pelo artigo. Aconselho alguns dos comentaristas a ler o seu último livro (capítulo 1). Pode ser que compreendam finalmente os conceitos de dívida pública e de défice público. E que a baixa dos juros é positiva, mas mais seria se fosse o spread de risco a baixar.

GabrielOrfaoGoncalves 10.05.2017

A maior parte dos comentadores confunde dívida pública com défice orçamental. Outros confundem descida do juro da dívida pública com descida dessa mesma dívida. (É o que deduzo, tendo em conta as recentes notícias de que o juro da dívida pública teria diminuído - um festim para os socialistas, ainda que a dívida continue... a crescer.)

Escrevem tais comentadores «Este anda a dormir, a dívida já está a diminuir e de que maneira. Escrevem gajos destes em jornais. Enfim» ou «Em termos de volume tem aumentado. Mas em termos de % do PIB já começa a descer que é o que interessa. Devo 10 e ganho 9 não é lá muito bom mas dever 11 e ganhar 12 é um pouco melhor. Este senhor economista tinha obrigação de explicar.» ou ainda «Deve andar com a cabeça na lua ainda ontem informaram que está a descer.»

Enquanto houver défice a dívida cresce (amortizações à parte). O que tem diminuído é, se quiserem, a taxa, a ratio a que nos endividamos. Em 2016 menos do que em 2015. Mas a dívida cresce.

Anónimo 10.05.2017

Dívida excessiva descontrolada é bom para os corruptos, os excedentários e os bancários. Para essa pandilha o descalabro pode vir em qualquer altura que eles já se aviaram.

ver mais comentários