João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 13 de junho de 2017 às 14:28

Quando tudo arde lá longe

Combates casa a casa, bombardeamentos aéreos, mais de uma centena de reféns encurralados pelos confrontos entre jihadistas e militares, tal era o cenário na devastada cidade de Marawi no último 12 de Junho, dia em que as Filipinas comemoram a proclamação da independência.

A maior parte dos 200 mil residentes fugiu da cidade capturada pelos jihadistas a 23 de Maio e o Presidente Rodrigo Duterte, após proclamar a lei marcial em  Mindanau, a segunda maior região do arquipélago, confrontava-se com as críticas dos estados vizinhos alarmados com o vigor da violência islamita.

 

Ao entrar na terceira semana de combates havia registo de cerca de 140 jihadistas mortos, seis dezenas de baixas militares, pelo menos 30 mortes de civis, e a ansiedade aumentava ante a incapacidade de as Forças Armadas porem termo à insurreição.    

 

Em represália por uma tentativa falhada das forças de segurança para capturar Isnilon Hapilon - chefe da organização Abu Sayaf vinculada ao Estado Islâmico - um bando jihadista local liderado pela família Maute apoderou-se de Marawi, atacando os cristãos desta cidade maioritariamente muçulmana e representantes da administração.

 

A virulência da ofensiva, envolvendo jihadistas sauditas, iemenitas e malaios, entre outras nacionalidades, surpreendeu as autoridades ao menosprezarem o bando liderado por dois irmãos que se radicalizaram no Egipto, Jordânia e Indonésia.

 

O bando Maute foi responsável por atentados bombistas em Cagayan de Oro, em 2013, e Davao, em 2016, e aliou-se, entretanto, a Hapilon que no ano passado levou Abu Sayaf a jurar obediência ao califa Abu Al Baghdadi, tendo sido nomeado emir na Filipinas do Estado Islâmico.

 

A radicalização jihadista tornou ainda mais letal Abu Sayaf, organização com um sangrento historial de raptos, pirataria, bandidismo e atentados nas Filipinas e Malásia desde o início da década de 1990 que se mostra agora capaz de atrair militantes islamitas além dos mares em redor de Mindanau.

 

Cerca de 30% dos 22 milhões de habitantes do Mindanau são sunitas e é longa a tradição de resistência muçulmana no arquipélago à colonização espanhola e às ocupações norte-americana e japonesa.

 

O separatismo grassou numa região em que os clãs muçulmanos, tal como em Palawan, não se reconheceram na proclamação independentista em Manila de líderes católicos como Ambrosio Bautista e Emilio Aguinaldo a 12 de Junho de 1898.

 

Nas ilhas de tradição muçulmana, muito próximas dos crentes das vizinhas Malásia e Indonésia, foi forte a resistência à presença americana após a capitulação de Madrid na curta guerra de 1898 com Washington e tumultuosa a relação com as elites que passaram a governar o arquipélago depois da retirada dos Estados Unidos e da concessão de independência em 1946.        

 

"Os 300 anos de convento e 50 de Hollywood" soam diferentes na região austral do arquipélago.

 

A partir dos anos 1970 sucessivas revoltas em Mindanau, Palawan e Sulu justificaram campanhas militares de Manila contra separatistas islâmicos e rebeldes comunistas.

 

Acordos de paz foram celebrados com a Frente Nacional de Libertação Moro (1996) e a Frente Islâmica de Libertação Moro (2014), mas arreigados sistemas de patrocínio e clientelismo obstam a consensos políticos capazes de promover regiões tradicionalmente desfavorecidas, apesar da criação em 1989 da Região Autónoma no Mindanau Muçulmano.

 

Duterte, antigo presidente da câmara de Davao, a maior cidade do Mindanau, ainda que favorável à autonomia muçulmana, tem descurado o combate ao jihadismo e ignorado redes de financiamento que se aproveitam de um sistema financeiro atreito à expedita lavagem de capitais de proveniência dúbia.

 

Desde a tomada de posse como Presidente em Junho de 2016 Duterte, fazendo jus à sua fama de demagogo autocrático, concentrou-se numa "guerra às drogas" mobilizando forças de segurança, militares e bandos de civis armados com cobertura oficial.

 

O balanço da muito popular campanha de execuções sumárias para extirpar as Filipinas de alegados quatro milhões de toxicodependentes salda-se, segundo dados oficiais, na morte de mais de 7 mil traficantes e consumidores, agravando o clima de violência.

 

Outras violências e ameaças vicejam nas Filipinas e, por sinal, foi em Manila, em 1994, que Khalid Sheik Mohammed testou a viabilidade da operação Bojinka, uma conspiração para fazer explodir no mesmo dia 12 voos entre os Estados Unidos, Leste e Sudeste da Ásia.

 

Só se consumou uma explosão a bordo de um voo das Philippine Airlines entre Cebu e Tóquio, matando um passageiro, mas Khalid Sheik Mohammed tirou as devidas lições para rever o plano de atentados aéreos.

 

Depois, Khalid concretizou o ataque a 11 de Setembro de 2001 e são coisas destas que acontecem quando tudo arde lá longe.

 

Jornalista

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