Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 09 de agosto de 2017 às 22:58

Quantas Europas?

Sabemos que a União Europeia é um mosaico de Estados com percursos históricos e identidades culturais próprias e diferenciadas entre si. Sabemos isso desde o início, desde a segunda metade do século passado, quando nasceu este ambicioso sonho.

É bom recordar que ele nasceu quando ainda existia o Muro de Berlim e a União Soviética, quando estávamos num mundo bipolar, e que procurou conciliar vencedores e vencidos da II Guerra Mundial. Houve um grandioso processo de desenvolvimento económico a partir dos escombros da II GM. A queda do Muro de Berlim foi há menos de 30 anos, mas já deu para provocar no mundo uma alteração significativa na realidade estratégica, com uma multipolaridade cada vez mais acentuada. A saída do Reino Unido do projeto europeu e a continuidade, por exemplo, da Grécia são sintomas de incongruência.

 

Calcorreando os territórios da Europa Central e Oriental sentem-se as várias realidades e os vários tempos históricos. Sabe-se da Hungria e do seu estatuto algo rebelde no seio da União Europeia e sabe-se deste grande país, a Polónia, onde me encontro a escrever este artigo, e das suas reticências cada vez mais conservadoras. Trump, aliás, quando esteve no G20, fez questão de ser recebido, e bem recebido, em Varsóvia com aplausos de milhares de pessoas. Vários desses Estados procuram sublimar as cargas históricas, por vezes tão dramáticas, das suas relações com a Alemanha e com a Rússia. Será a esta União Europeia que, por exemplo, nós Portugal, também pertencemos? Economicamente, o projeto pode ser muito interessante, mas, politicamente, culturalmente, não será diferente a Europa de Portugal, de Espanha, de França, do Reino Unido, de Itália, desta Europa mais eslava ou mais luterana, ou mais fria, mais distante? Para os projetos vingarem têm de fazer sentido, desde as entranhas. E, normalmente, o fazer sentido depende das circunstâncias de cada época. A História é assim, é impiedosa. Quando esta Europa nasceu ainda havia Muro de Berlim, havia um cimento comum. O cimento agora é outro, tem de ser outro e talvez aí o Reino Unido não estivesse sozinho, talvez quisesse voltar.

 

Do lado de cá, somos, na verdade, a democracia da Magna Carta, a democracia do Bill of Rights, a democracia da Revolução Francesa e da Revolução Americana, da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Por muito que o nosso Estado Democrático de Direito por estas paragens mais ocidentais vá sendo posto em causa, desta ou daquela maneira, por pessoas que usam o poder e a liberdade para oprimirem os outros, apesar de tudo, temos uma matriz comum. Temos séculos de guerras, de invasões, de batalhas, mas quando lemos ou ouvimos que, para lá das diferenças, professamos os mesmos valores, de liberdade, de pluralismo, de respeito pelas diferenças étnicas ou religiosas, acreditamos nessas palavras. Não é que, com outros povos amigos da Europa, vários desses valores não sejam objeto de comunhão e vivência comum. Só que há diferenças bem maiores e elas vão talvez desde a alma à economia e, por isso, é que muitos desses povos nos olham com distância e com reserva e pensam que gastamos indevidamente o dinheiro que eles geram.

 

Eu sei que o que aqui escrevo tem sabor de irrealismo, mas é um pouco como o "quantitative easing"… Enquanto durar, as coisas vão andando, mas, estruturalmente, será a solução? Obviamente não. E todos sentimos também um pouco que os países que referi - e outros que não mencionei - ainda estão juntos na mesma União, mas já não pertencem ou não querem pertencer exatamente ao mesmo projeto. O projeto da União Europeia é muito bonito, mas, em política, os projetos para além de serem bonitos, têm de ser realistas e genuínos.

 

Advogado

 

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