Fernando  Sobral
Fernando Sobral 27 de setembro de 2017 às 19:16

Que Catalunha?

Antoni Gaudí, director do projecto da Sagrada Família de Barcelona até à sua morte em 1926, chegou a dizer: "Sem a independência não há hipótese de criar na Catalunha uma política justa, honesta e regeneradora."

Só que hoje o nacionalismo catalão, que precisa de um inimigo (Madrid), porque não se reduz a uma questão de patriotismo saudável, foi ocupado por uma elite neoliberal que nada tem já a ver com as raízes libertárias do tempo de Gaudí. Como dizia o escritor Javier Cercas, "o que se passa na Catalunha não é uma questão de língua; é uma questão de poder". Político e económico, feito a partir de uma hegemonia cultural ao estilo gramsciano. E que se desenvolveu perante a incompetência do poder de Madrid e o cinismo de Bruxelas (que só defende referendos quando isso tem interesse político próprio, como se viu na antiga Jugoslávia ou, de forma mais vergonhosa, na Ucrânia, onde um governo eleito democraticamente foi afastado com o conluio da UE).

 

Poderia cruzar-se o pretenso referendo da Catalunha com as soporíferas eleições autárquicas nacionais, onde se discutiu o todo e se esqueceu o país real, desertificado, pobre e esquecido. No início do século XX, o poeta catalão e militante iberista, Joan Maragall, defendia uma Ibéria tripartida: a atlântica, a central e a mediterrânica. Portugal e Catalunha seriam os extremos marítimos frente a um centro peninsular considerado medieval. A visão modernista e industrial da elite catalã de então chocou de frente com a hegemonia imóvel da Castela imobilista, já que pretendia recuperar um olhar para o exterior. No início do século XX, houve um forte intercâmbio entre Portugal e a Catalunha. Teixeira de Pascoaes visitou Barcelona. Eugeni d'Ors veio dar conferências a Lisboa. Maragall e Miguel de Unamuno tentaram colocar de pé uma revista comum, "Iberia". Tudo se desvaneceu porque, no centro, Madrid foi implacável. E a Península Ibérica, durante o século XX, virou-se para dentro. Tal como aqui, Lisboa discute o poder de São Bento e esquece o resto.

 

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