Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 07 de novembro de 2017 às 21:06

Quem é, afinal, o maior intriguista da política portuguesa?

O melhor de António Costa, costuma dizer-se, é a sua habilidade para gerir equilíbrios políticos instáveis. Os indefectíveis acharão que se trata de uma forma particular de sentido de Estado.

No meu primeiro artigo do ano ("Tempo novo", 4.1.2017) defendi que a proximidade entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa era natural e expectável. O Presidente deve assegurar o "regular funcionamento das instituições" e isso recomenda muitas vezes a sustentação activa do Governo, especialmente tratando-se de um Governo minoritário da segunda força mais votada, assente numa base parlamentar frágil, sem um verdadeiro projecto comum.

 

No entanto, também defendi que a cooperação estreita com um Presidente tão popular pode ser tanto uma bênção como uma armadilha para o Executivo. Até que ponto toda a popularidade do Governo é realmente sua? Não será ela, em boa medida, a projecção no Governo da popularidade do Presidente que o apoia? E, se assim for, como caracterizar a relação: é Costa que tem o apoio de Marcelo ou é Marcelo que tem a tutela de Costa? Da resposta a esta questão depende o grau de liberdade que o Governo tem para afrontar o Presidente.

 

A julgar pela crise dos incêndios, o Governo acha que a sua popularidade é ilimitada. Ou então não se importa de a arriscar para se libertar da tutela de Marcelo. Não vejo outra forma de explicar a reacção ao discurso do Presidente de 17 de Outubro - uma reacção evidentemente organizada no Rato e em São Bento, destinada a espalhar por via da imprensa a história de que o Presidente, quando alegadamente sugeriu a necessidade de demissão da ministra da Administração Interna, já teria sido informado de que esta seria demitida. É uma história mal contada: desde logo, Costa informou Marcelo antes ou depois de, a poucas horas da demissão, ter dito que essa solução era "um bocado infantil"?

 

O Governo quis atacar o Presidente com a caricatura do Marcelo palaciano, intriguista e desleal. Mas há dois aspectos que os estrategas não terão medido bem. Em primeiro lugar, mediram pessimamente a percepção do eleitorado sobre a razão e a seriedade com que o Presidente falou. A esmagadora maioria das pessoas concorda que o Estado falhou redondamente e que Marcelo fez muito bem ao assumi-lo e ao exigir responsabilidades. Em segundo lugar, o Governo não percebeu o quanto a imagem do primeiro-ministro saiu afectada do sucedido.

 

Mais tarde ou mais cedo, todos os líderes ficam reféns do lado lunar das suas qualidades. Quando tudo lhes corria bem, Cavaco e Sócrates eram uns reformistas implacáveis. Quando tudo lhes começou a correr mal, passaram a ser uns arrogantes intransigentes. Guterres transformou-se de paladino do diálogo em símbolo da indecisão. Passos Coelho, que enquanto governante era reconhecido pelo rigor e severidade de espírito, características providenciais no tempo do resgate, foi depois prejudicado pela incapacidade de os portugueses verem nele alguém que correspondesse às suas aspirações para o futuro.

 

O melhor de António Costa, costuma dizer-se, é a sua habilidade para gerir equilíbrios políticos instáveis. Os indefectíveis acharão que se trata de uma forma particular de sentido de Estado. Os últimos meses mostraram que essa habilidade talvez seja um talento determinado apenas pelo instinto de sobrevivência. Desde Pedrógão, o que vimos foi um líder incrédulo com a realidade, num transe de desresponsabilização e auto-elogio, entre a futilidade imediata dos "focus groups" e a utilidade distante da reforma da floresta. O modo cobarde e insidioso com que Costa respondeu ao Presidente revela que, afinal, a sua habilidade é mais filha da pequenez dos palacianos do que da grandeza dos estadistas.

 

Advogado

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