André Macedo
André Macedo 01 de outubro de 2017 às 23:45

Rajoy: sim ou não?

O que aconteceu ontem na Catalunha, a violência, o sangue que escorria pela cara de tantas pessoas, pontapés e mais pontapés em novos e velhos, bastonadas, tiros de borracha, algumas crianças pelo meio a servir de escudo aos manifestantes - como foi possível levá-las para ali sabendo-se de antemão o que podia acontecer e aconteceu mesmo? -, homens e mulheres, polícias contra polícias, polícias contra bombeiros, o Estado dividido, atarantado.

A cicatriz não vai sarar depressa, está bem aberta e purga, destila ódio entre concidadãos.


O absurdo tomou conta do país aqui ao nosso lado. A bizarra união de propósitos entre uma classe média que vota à esquerda e à direita, a que se junta a mixórdia de partidos de direita e também de esquerda ou mesmo de extrema-esquerda, alguns desejando apenas abater aquilo que chamam "capitalismo" ou "neo-liberalismo". Engana-se quem pensa que há uma só ideia - a independência -, a percorrer os votantes/manifestantes do referendo ilegal de ontem, um referendo pela secessão, unilateral, portanto, inconstitucional e nocivo para Espanha e, por isso, também para a Catalunha.


Não ajuda nada ter um líder de governo como Mariano Rajoy. Tenho um cartoon pendurado em casa que diz assim:

- Mariano, não te chateia que te achem indeciso?


E ele, seráfico e inamovível, com os pés atirados para cima da secretária, responde:

- Sim e não.


A pergunta que me faço é simples mas de resposta complicada. É também de sim e de não. Fui contaminado pela inépcia de Rajoy. Como deve um Estado reagir à flagrante violação da sua constituição? Deve enviar a polícia para as ruas, correndo todos à paulada, se for caso disso, destruindo e arrancando pelo caminho as improvisadas urnas de voto? Ou deve retirar-se de cena, aguardando pacificamente que o referendo inconstitucional aconteça e de desvaneça?

Haverá um meio termo, uma nesga de espaço que permita o respeito pela lei e o idêntico respeito pelas pessoas e a sua integridade física e política? O respeito pela suas ideias? Talvez haja, sim, mas teria de vir de trás, com tempo, teria de ser negociada com tacto, sentido estratégico nacional e não a arrogância do governo de Rajoy. Era preciso filigrana política. Em caso algum poderia admitir o recurso à violência de Estado, que não é o mesmo que segurança de Estado. Rajoy é hoje a ovelha negra da Europa.


Ele é o pior inimigo dele próprio. É também um obstáculo à Espanha unida. Além da confusão que se vai seguir, com prováveis consequências económicas que não deixarão de derramar para este lado da fronteira, impõe-se agora o bicudo problema de governabilidade de um Presidente minoritário e sem força política e moral para decidir seja o que for. Não que os adversários mereçam elogios: a fortíssima demagogia que usaram na Catalunha, recorrendo também a um jornalismo que há quem diga subsidiado (não livre), tudo isso condicionou e limitou o debate possível.


Na realidade, o único ramo de oliveira que Espanha - não Madrid, mas Espanha... -, poderia oferecer à Catalunha seria um estatuto financeiro parecido ao do País Basco, mais favorável do que o que beneficia outras regiões, em que o Estado paga por cima um generosa quantia de euros para que a região gira a saúde, a educação, etc.


O ministro Luís de Guindos chegou a pensar nesta solução, mas como apresentá-la depois a outras regiões, algumas mais pobres e necessitadas do que a Catalunha? Como a negociar sem que os outros exijam o mesmo? O terrorismo no País Basco justificou a solução desequilibrada, extremada, mas agora o assunto seria outro, muito diferente. Este referendo era delinquente e feriu, talvez de morte, um governo soberano. Quando deixamos de brincar às democracias diretas?  

Jornalista

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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