João Costa Pinto
João Costa Pinto 25 de setembro de 2017 às 19:05

"Rating" e Europa do euro - (CIII)

Depois da fragmentação - económica, financeira e política - provocada pela crise, tem vindo a alargar-se o consenso sobre as decisões de que depende o futuro do projecto de integração da Europa do euro.

1. A crise financeira de 2007 abalou fortemente a credibilidade técnica e a imagem das agências de "rating". Apesar disso, continua a ser em torno destas que se organizam e funcionam os mercados financeiros internacionais. As suas decisões sobre os níveis de risco - suportadas por critérios e modelos de análise que nenhuma entidade supervisiona - condicionam tanto os investidores privados como as operações de política monetária, conduzidas pelos bancos centrais. Deste modo, mantêm uma influência sem paralelo sobre as condições de acesso às fontes de financiamento por parte das empresas e dos Estados, assumindo um papel central no capitalismo actual.

 

2. A decisão da S&P(*) de colocar a República Portuguesa num nível de risco que os mercados consideram de "investimento"(**) reveste-se neste contexto de uma importância que deve ser reconhecida: a nível interno, abre caminho a uma descompressão e à "normalização" das condições de financiamento da economia; externamente, alarga a margem de manobra política, num período crítico do projecto de integração da Europa do euro. Acresce que esta evolução faz aumentar o interesse - a urgência - em lançar um movimento articulado de reorganização dos nossos mecanismos de intermediação financeira, de modo a ultrapassar os bloqueamentos que - como referi no último artigo - condicionam o mercado bancário doméstico. Ficando esta questão para próximo artigo, deixo algumas observações sobre a segunda das razões - a nossa posição na Europa do euro. Depois da fragmentação - económica, financeira e política - provocada pela crise, tem vindo a alargar-se o consenso sobre as decisões de que depende o futuro do projecto de integração da Europa do euro: completar e estabilizar a União Bancária. O que passa sobretudo por operacionalizar os fundos de resolução e de garantia de depósitos; implantar um quadro - institucional, regulamentar e fiscal - capaz de induzir o desenvolvimento de mercados integrados de capitais; por último, criar mecanismos de estabilização macroeconómica, de apoio ao crescimento e à convergência - porventura sobre a forma de um fundo monetário(***). Estas decisões e, em particular, a criação destes mecanismos, pressupõem respostas que a Europa - Alemanha - tem recusado. Respostas que passam por relançar o projecto europeu a partir de uma plataforma que assegure um equilíbrio mínimo entre solidariedade, soberania e condicionalidade e que deste modo corrija os desvios e os bloqueamentos provocados pela forma como a Europa do euro procurou responder à crise - políticas com fortes efeitos assimétricos que penalizaram as economias periféricas. O que, a verificar-se, levanta, por sua vez, uma questão de fundo. Este movimento vai alargar-se a todas as economias do euro ou vai ser selectivo, e, neste caso, com base em que critérios? Se, além deste quadro tivermos presente que os mercados financeiros vão ter de absorver o impacto do retorno do BCE a instrumentos convencionais de política monetária, compreendemos a importância da decisão da S&P, neste momento.

 

(*) - Sandard&Poors; (**) - "Investment grade";(***) - Fundo Monetário Europeu(FME)

 

Economista

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