Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 14 de novembro de 2017 às 21:05

Recuperação e salários

A robotização e a digitalização poderão arrastar parte da população presentemente empregada na indústria para emprego nos serviços, onde se espera que aumente a procura por mão de obra.

O Eurostat publicou o crescimento da economia europeia (UE 28) no terceiro trimestre: atingiu 2,5%, que compara com 2,4% no trimestre anterior. Se as economias desenvolvidas revelam um forte dinamismo económico, que se estende pela procura interna e pelo mercado de trabalho, pelo lado nominal, inflação e salários nominais permanecem contidos. Olhando para os salários, conforme análise produzida pelo FMI no âmbito do seu World Economic Outlook de outubro, constata-se que, a despeito da queda das taxas de desemprego nas economias desenvolvidas para patamares próximos do pleno emprego, os níveis salariais permanecem globalmente abaixo dos padrões registados antes da crise.

 

A produtividade do trabalho demonstra abrandamento e as tensões inflacionistas adivinham-se domadas, contribuindo para a contenção do nível salarial. Além destas variáveis, o FMI avança ainda com a existência de folga no mercado de trabalho, intuindo a partir da evidência empírica recolhida de que, não obstante a queda da taxa de desemprego, se verifica acréscimo do trabalho parcial involuntário e de contratos temporários, induzindo pressão nos salários.

 

As conclusões deste trabalho suscitam questões interessantes. Para que tipo de mercado de trabalho se está a evoluir? Será necessariamente pior existir um mercado com formas contratuais mais flexíveis? Será este resultado produto da crise financeira ou da transformação da função produtiva? Qual o impacto da quarta revolução industrial?

 

A robotização e a digitalização poderão arrastar parte da população presentemente empregada na indústria para emprego nos serviços, onde se espera que aumente a procura por mão de obra. O envelhecimento das populações criará necessidades acrescidas de prestadores de serviços de saúde, lazer e recreação, cuidados continuados, transporte, assistência ao domicílio… A produtividade do trabalho nos serviços deverá aumentar com a disseminação de novas tecnologias, mas tenderá a ser menor do que na indústria, pelo que o nível global de salários se manterá condicionado. Além de pressionar os salários, a folga do mercado de trabalho poderá fomentar a fragmentação do horário laboral. Os trabalhadores serão necessários ao longo de 24 horas, embora muitas vezes para tarefas específicas.

 

Naturalmente, haverá exceções. A mão de obra mais qualificada, pressupõe-se, deterá algum poder negocial. O esmagamento salarial, potencialmente induzido pela reconfiguração das formas contratuais e pela folga produtiva, e o encolhimento das oportunidades de trabalho, por vida da penetração de máquinas inteligentes, poderão não ser uma realidade transversal, mas somente impelir uma maior divisão no mercado laboral entre trabalhadores qualificados e não qualificados (sendo a qualificação um fator sujeito a discussão).

 

Pressente-se pessimismo em torno do futuro do mercado de trabalho por via dos elementos referidos. Este desafio, que apenas se vislumbra, é uma revisitação do passado. Se houve períodos com fortes falhas de mercado, estas foram identificadas e o Estado interveio, patrocinando a sua correção, elevando os padrões morais e éticos das práticas de mercado. Com base na História, a despeito de períodos de transição dolorosos e mais ou menos prolongados, falhas de mercado ao nível do trabalho têm vindo a ser ultrapassadas e um relativo equilíbrio das forças negociais reposto. O passado, a este respeito, oferece-nos algum conforto; porém, não isento de luta.

 

Economista

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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PARTE (da população) é a palavra chave Há 6 dias

Se essa PARTE for de 1 para serviços em 100 que saem da industria, o que fazer com os outros 99? E se os serviços forem maioritariamente tentar vender D2D produtos desnecessários aos concidadãos cada vez com menos recursos? Concordo com os serviços de assistência 24h,porque ainda há quem possa pagar