Cristina Simon
Cristina Simon 27 de setembro de 2017 às 20:47

Redução de custos ou investimento na sustentabilidade 

Nas páginas de um jornal encontro uma notícia que me parece que merecia destaque de primeira página: contra a expectativa de muitos especialistas, a recente medida alemã de fixar um salário mínimo para os trabalhadores não gerou uma onda massiva de despedimentos.

De facto, as estimativas apontam para que se tenham perdido ou não gerado 60 mil empregos numa base de 42 milhões de trabalhadores, enquanto desde a entrada em vigor desta medida foram criados mais de 450 mil novos postos de trabalho.

 

Obviamente, as estatísticas podem ser lidas de muitas formas. Mas a notícia é muito boa sobretudo por uma razão: demonstra que há que desafiar enunciados económicos muito enraizados na nossa sociedade como, por exemplo, que qualquer medida de aumento de custos laborais vai representar uma reacção imediata dos empregadores em forma de despedimentos. Nos anos 90, a Alemanha já nos proporcionou um exemplo similar quando alguns grandes bancos, confrontados com as consequências de introduzir tecnologia nos escritórios, decidiram investir na formação dos seus colaboradores para ampliar o seu negócio e melhorar o seu serviço em vez de desfazer-se deles.

 

Está claro que, nestas decisões, pesa a filosofia contabilística das empresas, que impede de "capitalizar" tudo o que esteja relacionado com as pessoas. Com excepção de algumas organizações desportivas, que trabalham com fichas das estrelas que compram e podem vender para recuperar o seu capital se assim o decidem, o certo é que os trabalhadores não são propriedade das empresas. Portanto, podemos tomar a iniciativa de mudar de trabalho sem opção de compensação para o empregador. De momento, os sistemas contabilísticos não conseguiram resolver este facto, que converte os trabalhadores directamente num custo. E o que se faz com os custos é, no mínimo, controlá-los e, se possível, minimizá-los. Precisamente o contrário do que acontece com os investimentos, nos quais se estimam e adoptam riscos, pensa-se nos rendimentos a longo prazo e trata-se até que acabem por dar os frutos esperados.

 

Pessoalmente, tenho a sensação de que os novos valores de sustentabilidade, apoio da comunidade ou solidariedade intergeracional podem reforçar esta visão dos trabalhadores como um investimento que vale a pena no longo prazo. Se esta ideia entra nos escritórios dos executivos, talvez até se repensem os sistemas que limitam os trabalhadores à dimensão de "custo". Se fruto desta profunda crise se iniciar este debate, talvez, em certo modo, tenha valido a pena.

 

Professora na IE BUSINESS SCHOOL e directora do MBA IE BROWN 

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