Rui Patrício
Rui Patrício 02 de Dezembro de 2016 às 00:01

Reencontro com Ruy Belo (num tempo de maus presságios)

Poderia tratá-lo por doutor, mas isso não seria distintivo, já que doutores somos muitos neste nosso país possível, mas senhores temos bastante menos.

Caro Senhor Ruy Belo, creio que aceitará que o trate assim, pois não posso tratar de outra forma quem (com a idade que tenho agora) deixou o mundo dos vivos quando eu tinha sete anos, e que vejo como um senhor (poupo a maiúscula, porque a reservava para o seu Deus - que não é o meu, mas isso não nos afasta, aliás pelo contrário, se bem o li). Poderia tratá-lo por doutor, mas isso não seria distintivo, já que doutores somos muitos neste nosso país possível, mas senhores temos bastante menos. O tratamento por caro poderá ser para si estranho, e achá-lo-á porventura atrevido, mas em minha defesa invoco que o não poderia tratar por excelentíssimo, já que o senhor era um homem de palavra(s) e não as queria banais, como banal se tornou esse tratamento nesta terra de demasiadas e menores excelências. Pensei em chamar-lhe, antes de senhor, estimado ou prezado, mas isso era pouco, eram significantes simples, e talvez tristes, como naquele seu poema sobre a simplicidade do significante natal num aeroporto do nepal (ambos com minúsculas). Ficou, pois, caro - no sentido de uma proximidade, respeitosa e alegre, a de alguém que frequentemente o reencontra, quando entre as lombadas de muitos livros e cartapácios recorre aos seus escritos para um diálogo que tem tanto de aconchego quanto de inquietação. Como se fosse um problema de (da) habitação, uma necessidade de habitar (para viver) lombadas e palavras adentro, franqueando a margem da alegria, numa espécie de boca bilingue (a minha e a dos autores que habito, mais esta do que aquela, pois cada um deve saber qual é o seu lugar).

 

Perdoe-me este reencontro, e também o parágrafo anterior, usando - quase brincando, embora afetuosa e significativamente - títulos e palavras de livros e de poemas seus, mas voltei a procurá-lo várias vezes nos últimos tempos, em busca do tal conforto que também inquieta, como é próprio dos que melhor escreveram (como é o seu caso). Nas lombadas também estava "Os Últimos Dias da Humanidade", e quase o tirei da estante, mas intui que seria demais reler agora essa tragédia de Karl Kraus em cinco atos com prólogo e epílogo (habitada por oficiais e soldados, cínicos e manipuladores, repórteres e correspondentes, populistas e sensacionalistas, governantes e diplomatas, um eterno descontente, cobardes e oportunistas, e um otimista que talvez seja apenas crédulo). Não teria forças para suportá-lo, e talvez seja cedo (será, nestes dias de prenúncios?) para trazer à liça esse retrato da violência sangrenta das ilusões, do mal e da guerra; esperemos que o seja, eu com o otimismo da vontade, o Ruy Belo com a fé que deu belíssima luz à sua poesia (não a luz branca, reta e presente das palavras de Sophia, mas uma luz cética, embora substantiva e esperançosa).

 

Quero que sejamos todos, como no título de um dos seus poemas derradeiros, fugitivos da catástrofe. Quero, como o senhor queria, que todos possam levar Catarina ou outra filha a conhecer a neve. Escreveu o senhor, em maio de 1977 (tinha eu seis curtos anos), e quisera eu poder escrevê-lo hoje: "E o deslumbrante resplendor da alegria / tua fidelidade eterna à vida / já não permitirão tua partida / quando raiar fatal o novo dia." Bem-haja, e bem-hajam todos os que o saibam ler. Terrível é o homem - escreveu o senhor -, mas também que tem nos olhos o tempo suave das árvores e que dos seus olhos (ou do seu criador, mas não é o mesmo?) saíram os rios que foram desaguar ao grande mar do princípio.

 

Advogado

 

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