José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 24 de maio de 2017 às 20:10

Refundação improvável

A verdade é que a União Europeia continua pouco dinâmica, assimétrica e, acima de tudo, destituída de projeto comum.

A FRASE...

 

"Macron propõe uma refundação histórica da Europa."

 

Público, 15 de maio de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Emmanuel Macron usou a fórmula perfeita para as eleições presidenciais, ao colocar-se, simultaneamente, como o representante do "status quo" e o candidato fora do sistema (partidário). Estas duas facetas aparentemente inconciliáveis possibilitaram ao eleitorado enviar um forte sinal de protesto à classe política sem, contudo, alterar as características essenciais do sistema. Mas para o bem ou para o mal, a escolha dos franceses implica a perpetuação de uma dinâmica de erosão continuada do panorama económico, que continuará a alimentar as falanges extremistas. Um ritmo de crescimento do PIB inferior a 1%, como se verificou no primeiro trimestre deste ano, dificilmente gera os ganhos de emprego e de salários almejados pelos muitos trabalhadores que vão engrossando as fileiras de Le Pen. É neste sentido que surgem como algo surpreendente as manifestações de otimismo que brotam em toda a Europa com a vitória de Macron. É claro que, para já, a eliminação da ameaça da Frente Nacional para a integridade do projeto europeu é razão bastante para alívio.

Mas parece-me excessiva credulidade considerar que Macron irá conseguir desbloquear as tensões políticas na Europa e, com Merkel, desenguiçar a economia do Velho Continente. A verdade é que a União Europeia continua pouco dinâmica, assimétrica e, acima de tudo, destituída de projeto comum. Forjar um novo requer um entendimento improvável nas frentes que têm minado o consenso: política monetária, regras orçamentais, união bancária, imigração e refugiados, entre tantas outras nuvens que opacificam o sonho europeu. Daí que a refundação que Macron propõe é improvável, pelo menos não antes da eclosão de uma crise profunda que crie nos líderes europeus o sentido de emergência necessário para os extrair do torpor em que se quedam vai muito tempo.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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