Richard Kozul-Wright
Richard Kozul-Wright 06 de Novembro de 2016 às 20:00

Regressando ao investimento

Um desequilíbrio entre lucros e investimento é a principal razão para o actual crescimento tépido nos países desenvolvidos e em desenvolvimento; a menos que seja enfrentado, o resultado pode ser uma maior crise de legitimidade da governança empresarial e gestão económica.
Na cimeira do G20 realizada no mês passado em Hangzhou, na China, os líderes mundiais destacaram um ambicioso plano para uma "nova era de crescimento global". Mas deixaram um ingrediente-chave de fora: consertar o clima de investimento.
 
O saber convencional sustenta que, através de mercados financeiros eficientes, as poupanças das famílias vão afluir para empresas que sabem melhor como tornar o dinheiro produtivo. Mas em muitos países em desenvolvimento, acesso mais fácil a financiamento – devido a fluxos transfronteiriços irrestritos e à desregulação dos mercados – ainda não se traduziu em mais financiamento de investimento de longo prazo, particularmente no sector produtivo.
 
As decisões sobre investimento dependem de uma variedade complexa de factores e contingências, e uma conjugação de dinheiro público e privado é crucial para fazer florescer novos projectos. No Leste da Ásia, que experimentou um rápido crescimento e desenvolvimento nos anos recentes, os legisladores não só permitiram, como encorajaram, lucros empresariais mais elevados desde que os mesmos fossem canalizados para investimentos produtivos. Como resultado, cerca de quatro quintos dos fundos utilizados nos investimentos das grandes empresas do Leste asiático são lucros acumulados, enquanto instituições financeiras estatais ajudaram a manter o ritmo do crescimento orientado para o investimento.
 
Um desequilíbrio entre lucros e investimento é a principal razão para o actual crescimento tépido nos países desenvolvidos e em desenvolvimento; a menos que seja enfrentado, o resultado pode ser uma maior crise de legitimidade da governança empresarial e gestão económica.
 
Nas economias desenvolvidas, a rentabilidade das empresas tem crescido de forma consistente, em parte devido à estratégia de "primazia dos accionistas", com tomadas de decisão focadas no curto prazo, em medidas de redução de custos e noutras formas de engenharia financeira encorajadas por investidores institucionais. Sob diversas formas, as estratégias convencionais de "reter-e-investir" estão a ser substituídas por estratégias de "reduzir-e-distribuir", em que os lucros são despendidos em dividendos mais altos, recompra de acções, fusões e aquisições.
 
Nas economias em desenvolvimento, os fluxos financeiros globais contribuíram mais visivelmente para choques macroeconómicos que alimentaram a incerteza económica, o que reduz o horizonte de investimento-planeamento das empresas. Mais recentemente, é também possível ver empresas de economias em desenvolvimento a prosseguirem as mesmas estratégias de governança empresarial daquelas seguidas nos países desenvolvidos. A julgar pelos balanços das empresas não financeiras, os rácios de investimento-lucros caíram desde 1995 até 2014, com declínios mais agravados no Brasil, Malásia, Coreia do Sul e Turquia.
 
Grandes empresas públicas são menos comuns na generalidade das economias em desenvolvimento face às economias desenvolvidas; mas para aquelas companhias de economias em desenvolvimento que distribuem regularmente dividendos, os pagamentos aos accionistas têm vindo a crescer mesmo quando a rentabilidade permaneceu essencialmente a mesma. Tais empresas estão também a acumular activos financeiros – por vezes mais rapidamente do que acumulam dívida empresarial – o que sugere que não têm oportunidades de investimento rentáveis no longo termo nem opções em carteira de investimentos nos mercados financeiros liberalizados.
 
Seria prematuro sugerir que a relação entre lucro e investimento falhou no mundo em desenvolvimento. Mas, assim como a rentabilidade das empresas cresceu de forma transversal, em todo o lado (com excepção da China e da Índia) as tendências de investimento têm sido fracas, o que é verdade mesmo antes da crise financeira global de 2008.
 
Entretanto, a financeirização continua a mudar a estabilidade macroeconómica em todo o mundo. Por exemplo, os programas de "quantitative easing" nos países desenvolvidos têm contribuído para o excesso de liquidez – e portanto para a recente explosão de dívida empresarial nas economias emergentes. Percorrendo uma amostra destas economias, a dívida denominada em dólares das empresas não financeiras aumentou em média 40%, de 2010 para 2014; de 2007 até 2015, os rácios de serviço da dívida também aumentaram 40%. Estes números sugerem que há uma crise do sistema financeiro na forja. 
 
Além do mais, o investimento alimentado por dívida tem-se concentrado em sectores baseados em recursos naturais altamente cíclicos e que não contribuem para gerar crescimento inclusivo e sustentável. Na verdade, apenas sete sectores – petróleo e gás, electricidade, construção, matérias-primas industriais, imobiliário, telecomunicações e minério – representam mais de dois terços do crescimento total, tanto da dívida como do investimento. Isto sugere que o fácil acesso a dinheiro barato e ao financiamento de dívida não favoreceu os sectores de alta-tecnologia que mais contribuem para o crescimento da produtividade.
 
Para reverter esta tendência temos, primeiro, de inverter a tendência das economias emergentes rumo a estratégias empresariais altamente financeirizadas. Isto vai exigir alterações na governança das empresas de uma forma geral, e nas estruturas de incentivos das empresas não financeiras, incluindo um tratamento fiscal preferencial para lucros não distribuídos e financiamento de capital, e dotações especiais para lucros reinvestidos.
 
Para lá da governança das empresas, temos de restaurar o equilíbrio na relação lucro-investimento através de iniciativas institucionais e políticas públicas e ainda com políticas industriais proactivas. Isto vai exigir reformar e aprofundar o sistema financeiro por forma a assegurar uma capacidade de emprestar o suficiente para investimentos de longo prazo, incluindo às pequenas e médias empresas.
 
Em relação ao ambiente macroeconómico, os governos podem melhorar as condições através de investimento público, em particular em infraestruturas, o que irá aumentar a produção e acrescentar rentabilidade ao sector privado. Por último, a comunidade internacional deve prosseguir vigorosamente esforços contra a evasão fiscal e a fuga de capitais, que erodem a base de receitas dos Estados.
 
O investimento de longo prazo em activos produtivos é essencial para assegurar o crescimento sustentado que as economias em desenvolvimento precisam. Mas estas não o irão conseguir mantendo um ambiente que encoraja estratégias de curto prazo.
 
Richard Kozul-Wright, director da divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, é autor do livro Transforming Economies: Making Industrial Policy Work for Growth, Jobs and Development.
 
Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: David Santiago
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