André Macedo
André Macedo 24 de julho de 2017 às 00:01

Regresso aos Açores

Ao longe, no meio do Atlântico, entre Ponta Delgada e o Pico, ilhas extraordinárias, o que acontece no continente assemelha-lhe a uma nuvem de assuntos cansados que tapam o céu, largam umas pingas miseráveis e desaparecem sem deixar nada que se aproveite.
Desta semana e meia que levo fora de Lisboa, sobressai a parvoíce do candidato do PSD a Loures, pequeno cérebro político, ínfimo homem incapaz de agarrar um problema difícil e relevante - a maneira como o Estado se relaciona com os ciganos e outras minorias - e tomar posição política, que até seria oportuna, sem cair na agressão e na mais humilhante imbecilidade.

É evidente que o PSD deveria ter corrido logo com ele, como fez e bem o CDS. Não tendo esta clarividência - a teimosia de Passos Coelho, boa nalguns casos, tem destas coisas rasteiras -- que seja então esmagado nas urnas. Será uma questão de salubridade democrática. No meio deste torpor que estão a ser estas eleições autárquicas, a possibilidade de ver este tipo cilindrado passou a ser o meu maior e talvez único ponto de interesse. Torço para que assim seja, embora não esteja certo do resultado.

Quanto ao outros candidatos, de norte a sul passando pelas ilhas, o que vejo é quase nada, nevoeiro cerrado onde pastam os do costume sem energia para nos providenciar alguma coisa de interessante para pensar e debater. É uma lástima que a política local esteja entregue a tanto novo e velho cacique partidário. E no entanto há muito a fazer e a melhorar no país fora de Lisboa e do Porto.

Aqui nos Açores, por exemplo, sobressai a importância do Estado para desenvolver o que o dinheiro privado, quase inexistente perante a pequena e rudimentar dimensão do mercado, não consegue providenciar. Os Açores são belíssimos, as estradas boas e bem arranjadas, floridas e limpas, há escolas públicas de qualidade que servem vilas pobres e pequenas, os serviços de saúde melhoraram muito, mas as diferenças de ilha para ilha são dolorosas.

Mas o que espanta mais é a rivalidade demolidora e acéfala entre as ilhas. Os tipos de S. Miguel olham de lado para os da Terceira e vice-versa. Os do Faial concorrem avidamente com os do Pico. A disputa pelos recursos públicos é levada ao extremo da irracionalidade. O governo regional dificulta o apoio às festas que acontecem em zonas de outra cor. Haverá coisa mais tonta? Faz-se um mega hospital num sítio, enquanto noutros ao lado a capacidade de resposta está claramente aquém das necessidades das pessoas.

A suspeita de favoritismo recai até sobre a gestão do espaço aéreo: diz-se por aqui que os do Faial não enviam os aviões para o Pico quando há mau tempo e é fraca a visibilidade, preferindo enviar os passageiros para a Terceira, evitando assim beneficiar -- com turistas ocasionais -- a ilha vizinha. Como já me aconteceu isto mesmo, levando-me a uma odisseia de 24 horas inter-ilhas (com barco e vários táxis despreparados pelo meio) para chegar finalmente ao meu destino, suspeito que haja qualquer coisa de verdade nesta tese mirabolante. E no entanto nada parece travar esta loucura coletiva.

A Sata, a companhia aérea regional, poderia talvez gerir tudo isto com alguma racionalidade económica e ambição, alguma credibilidade, mas o que tenho visto são atrasos e mudanças súbitas de horário capazes de dar cabo de qualquer hipótese de desenvolvimento. O que acontece nos Açores acontece pelo país inteiro, basta lembrar a eterna competição aeroportuária ente Lisboa e o Porto. Tudo pequenas e mesquinhas rivalidades que as eleições autárquicas não resolvem, aprofundam, construindo um país mais difícil de gerir e de viver. Resta-me então admirar a vista de S. Jorge bem à minha frente. Apesar de tudo, está bom tempo no canal.

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surpreso Há 3 semanas

Vocês idiotas de "esquerda" estão a dar a vitória ao Ventura ,em prejuizo do vosso camarada pro-Coreia do Norte