Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 03 de janeiro de 2018 às 20:08

Reinventar o que não se inventa 

Nas condições normais, a política é uma combinação de virtude e de fortuna - e o talento do político avalia-se pela sua capacidade em enfrentar as incertezas e os acidentes da sorte.

A FRASE...

 

"O ano que começa tem que ser o ano da reinvenção (…) ter a certeza de que as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades".

 

Presidente da República, mensagem de Ano Novo 2018

 

A ANÁLISE...

 

Em democracia, a política pode ser vista na perspectiva da representação - quem é eleito tem por obrigação defender os interesses e as expectativas dos que o elegeram: representa e protege os seus. Mas também pode ser vista na perspectiva da direcção - quem é eleito tem por obrigação orientar a articulação dos diversos interesses e a formação das variadas expectativas daqueles que o escolheram para governar: mobiliza e dirige todos.

 

Optar por uma destas perspectivas da política pode ser inerente à função que se exerce. Um primeiro-ministro pode ver-se como o chefe de uma maioria, justificando o que faz com a necessidade de representar quem o colocou nessa posição ou com as negociações necessárias para manter essa coligação maioritária. Mas um Presidente da República não pode fazer a mesma opção: depois de eleito, é Presidente de todos os portugueses, não pode invocar os que votaram nele para justificar o que faz. Sendo o único órgão de soberania que tem necessariamente uma maioria absoluta, não está sujeito a negociações para garantir o seu poder - e é também por isso que a sua responsabilidade de avaliação não é divisível, nem transferível, nem negociável. O Presidente está sozinho perante todos, está obrigado a dirigi-los.

 

Nas condições normais, a política é uma combinação de virtude e de fortuna - e o talento do político avalia-se pela sua capacidade em enfrentar as incertezas e os acidentes da sorte. Nem a sociedade tem capacidade de autogestão, nem a economia tem uma dinâmica interna de crescimento induzido automático. Por isso, não se reinventa o que não se pode inventar, porque a política é virtude e fortuna, é leão e raposa, é incerteza e conflito. E para os mais ingénuos ou crédulos, será útil relembrar uma frase de Arménio Carlos, secretário-geral de uma central sindical, numa entrevista publicada dois dias antes da declaração do Presidente da República: "Como se costuma dizer, estamos cá para cobrar."

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 2 semanas

Certo.

5640533 Há 2 semanas

Desde quando Arménio Carlos metece ser citado ou é autoridade em alguma coisa? É um cancro e nada mais.

pub