Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 18 de abril de 2017 às 20:15

Reivindicações de um trabalhador em autogestão

Quem trabalha por conta própria descobre cedo que aturar-se a si mesmo como chefe não é brincadeira.

Quando se começa a desejar um relógio de ponto, é porque as coisas estão mal. Preocupante, quando se imagina como era bom ter um horário afixado na parede, conforme diretivas da Direção-geral do Trabalho. E, no entanto, a certa altura quem trabalha em autogestão, sobretudo em casa e por conta própria, dá por si a sonhar com estas coisas. Pois é, trabalhar por conta própria tem milhares de vantagens, mas quando não existem limites impostos de fora, há o risco de se perder o pé, para um dia descobrirem que aturarem-se a si mesmos como chefes não é brincadeira. É que o "tipo" cobra a preço de ouro qualquer intervalo de almoço, ou escapadinha para beber uma bica, e refila quando se "larga" mais cedo, obrigando a compensar todas as outras em que se foi menos produtivo.

 

Não trabalharão necessariamente mais, mas são perseguidos por um eterno sentimento de culpa por não atingirem os "objetivos" que se auto-impuseram, e que a falta de um ordenado certo ao fim do mês não deixa esquecer. E, coitados, nem sequer têm com quem refilar, nem podem ser cúmplices com os colegas do lado no protesto contra a tirania do patronato, catarses indispensáveis à saúde mental.

 

E se é evidente que andamos todos, novos e velhos, escravizados por telemóveis inteligentes que objetivamente alargaram as horas de serviço para as 24 horas por dia, suspeito que os trabalhadores em autogestão vivem também esta dependência com ansiedade acrescida. Aparentemente podem gerir o seu tempo com total liberdade, mas na realidade não se permitem o luxo de não dar uma resposta rápida a uma proposta de trabalho, de adiar um prazo, ou de mandar às urtigas um cliente que passa das marcas. Sobretudo, estão sozinhos nessa decisão, impossibilitados de se escudarem no argumento de que é contra a política da casa ou tirar da manga aquele trunfo de que "o sistema está em baixo", com que nos despacham em muitas repartições minutos antes do fecho. E assim, em lugar de aproveitarem as horas que poupam no trânsito e em reuniões inúteis, dedicando-o a fazer o que lhes der na real gana, agriolham-se à secretária sem esperança de remissão. Permitindo, aos poucos, que esta pressão constante lhes parasite o cérebro, boicotando a criatividade, que é a arma de quem é patrão de si mesmo.

 

Pensei neles (pensei em mim, valha a verdade!) quando esta semana li no site da BBC como os nossos cérebros funcionam no máximo exatamente quando deixamos a mente vaguear, quando sonhamos acordados, exercício a que a humanidade se dedicou durante milénios, mas que os smartphones e laptops ameaçam, com grave risco, dizem os neurocientistas, para a capacidade de produzirmos ideias frescas e inovadoras. Como não podia deixar de ser quando, como revelam as estatísticas, passamos mais de dez horas por dia a encher passivamente os neurónios de informação, muita dela aleatória e inútil. O conselho que deixavam é que seguíssemos em terra as prescrições das linhas aéreas da Jordânia, que reagindo à ordem dos EUA e do RU que proíbe os passageiros vindos do Médio Oriente de transportarem consigo aparelhos electrónicos maiores do que um telemóvel, oferece a quem viaja com eles "12 coisas para fazer em 12 horas sem tablet e laptop". Sendo que a 11.º é "Pensar no sentido da vida". Os investigadores ouvidos pela BBC juram que rende em produtividade, e que todos os empregadores a deviam aplicar em terra. Os que se empregam a si mesmos, incluídos.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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comentários mais recentes
Anónimo 21.04.2017

Consequência do aproveitamento do desemprego, a maioria qualificados e experientes. Estratégia de empresas estrangeiras querem estrutura local a custo zero, publicitando e garantindo aos seus clientes acesso ao serviço, com retorno bastante reduzido.Trabalhar em autogestão tem algumas vantagens:não

Anónimo 20.04.2017

Criem uma sociedade sem numerário (cashless society), reformem o sistema tributário de acordo com a proposta Automated Payment Transaction tax de Edgar L. Feige e substituam o sistema público em pirâmide de prestações sociais por um Rendimento Básico Universal (aproximadamente 480 euros/mês em Portugal; 750 euros/mês na Finlândia; preços de 2016) em todo e cada Estado-Membro da UE na Euro Zona. Obviamente que isto pressupõe uma aprofundada flexibilização das regras laborais no sector público e no sector privado, entre outras condições, para evitar abusos ou injustiças tais como ter reclusos a receber rendimento básico ou as contribuições já feitas à Segurança Social não serem devolvidas na íntegra aos contribuintes que ainda nada receberam da Segurança Social mas têm uma carreira contributiva.

Vieira 19.04.2017

E aturar-se a si mesmo como empregado? Nem queira saber.

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