Paulo Carmona
Paulo Carmona 26 de junho de 2017 às 20:31

Remendar um mau sistema

É de louvar a vontade do Governo em tentar converter desempregados em programadores, e nos "power-points" a coisa é bonita e fácil. Mas como?

A FRASE...

 

"É preciso investir não só na formação das crianças, mas também da população adulta, sobretudo daqueles que não têm emprego. Até 2020, queremos formar mais 50 mil pessoas com competências digitais."

 

António Costa, Diário de Notícias, 5 de junho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O Governo reconhece que Portugal não tem recursos nem competências para ser atrativo, ou um centro de saber, na época da globalização. Se as empresas portuguesas não conseguem recrutar quadros com valências nas novas tecnologias, como e porque atrair empresas internacionais, ou "start-ups", nessas áreas? Uma empresa tecnológica que se instale em Portugal, e face à indisponibilidade de recursos humanos disponíveis, terá de os recrutar noutras empresas, provavelmente portuguesas. Ou seja, um "crowding-out" em que empresas, atraídas a investir em Portugal em novas tecnologias, estão a condenar empresas portuguesas existentes, afastando-as do mercado por captura dos seus recursos…

 

É de louvar a vontade do Governo em tentar converter desempregados em programadores, e nos "power-points" a coisa é bonita e fácil. Mas como? Grande parte dos desempregados licenciados são-no em áreas não-cientificas onde a Matemática foi deixada para trás no 9º ano, ao contrário de outros países, como a Alemanha, onde essa disciplina é dada até ao 12º. Como a programação tem muito de raciocínio logico-matemático será mesmo muito difícil conseguir cobrir essas lacunas de formação. É apenas boa vontade em tentar remediar ou remendar falhas do sistema.

 

O Estado tem de investir mais nas competências necessárias para a globalização do século XXI, novas tecnologias, robótica, inovações tecnológicas. E como poderá fazê-lo de forma estrutural? Apostar na matemática, limitar o acesso aos cursos não científicos de baixa empregabilidade, ou tornando-os mais caros como no Reino Unido, etc. Isto trará sempre uma enorme resistência por parte dum sistema de ensino pouco virado para as questões práticas. Uma blasfémia…

 

Investir em cursos ou doutoramentos de baixa empregabilidade, num país pobre e de baixos salários, não é investimento é despesa. Porque não tem retorno em criação de riqueza e de emprego ou captação de investimento externo, tão necessários para podermos ter algo, que não dívida, para acudir aos mais necessitados num século XXI com cada vez mais desafios.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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